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Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

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A Cor dos Olhos

Num dos últimos encontros de formação dos LMC falamos e partilhamos acerca da gestão dos conflitos e o quanto é importante poder gerir não tanto os conflitos externos, mas principalmente os conflitos internos. Olhar para dentro de nós não é fácil mas é o primeiro passo para lidar com os conflitos na nossa vida. Começar por nós. A seguinte fabula ilustra bem o que queremos dizer.


Era uma vez uma onça. Uma onça felina, com os olhos sempre afaiscar. Todos a conheciam e todos a temiam. Aqueles olhos conheciam todos os recantos da floresta. Não havia novidade ou notícia que escapasse
àquele olhar. Mas à custa de tanto vasculhar nos segredos dos outros, os olhos da onça acabaram por se cansar. E a onça começou a ter dificuldade em dar conta de tudo o que se passava à sua volta. As novidades começaram a escapar-lhe e a onça começou a ficar desnorteada. Primeiro, pensou em usar óculos. Mas era pior a emenda que o soneto. Já alguma vez se viu uma onça de óculos? De resto, o oftalmologista desiludiu-a A coisa já não ia só com óculos. O mal era das cataratas e só uma cirurgia podia resolver o problema. O remédio foi, portanto, ter de se sujeitar a uma intervenção cirúrgica A onça ainda hesitou, mas, depois, achou que sim senhores, que mais valia ser operada que andar para ali a vender água sem caneco. E foi operada aos seus ricos olhos. A operação correu bem. «Melhor do que se esperava», disseram os clínicos. Vai ficar como nova, confirmavam os outros quadrápedes do hospital. Mas quando tirou o penso dos olhos, com grande espanto seu, a onça começou a ver as coisas muito mais deformadas que antes da operação. Se antes não via com clareza, agora via tudo negro. Tudo lhe parecia horrível, nunca vira a selva daquela maneira. Aquele olhar que tudo deformava deixava-a inquieta e perturbada Era impossível as coisas terem mudado tanto, em tão pouco tempo. Por pior que o mundo fosse, antes das cataratas, não era nada do que agora via.
E vá de ir de novo ao cirurgião, para que ele dissesse da sua justiça. O cirurgião, antes de dizer da sua justiça, pegou de novo na sua luneta dos grandes momentos e reconheceu, com toda a humildade e alguma vergonha, que, na cirurgia, tinha cometido um erro fatal. Não que tivesse deixado as tesouras dentro dos olhos, como já lhe acontecera outras vezes, mas tinha deixado os olhos da paciente voltados para dentro, em vez de os ter virados para fora como era lei da natureza. Em virtude disso, a onça via as coisas voltadas para dentro de si. Felizmente que o caso tinha remédio. Bastaria virar os olhos ao contrário.
E o cirurgião pegou de novo nas tesouras e no bisturi e virou os olhos da onça para o lado de fora. Abençoada manobra, pois imediatamente a onça começou a ver tudo muito bem, com uma beleza como nunca as tinha visto. Havia ainda o bom e o mau, mas com aqueles olhos novos até o mau lhe parecia bom. Afinal, os defeitos que antes via nos outros vinham dos seus próprios olhos. Quer dizer: o que deformava a realidade era ver os outros a olhar para dentro de si, em vez de os ver como eles eram. Há poeira no mundo e muito dia cinzento por causa da cinza dos nossos olhos. O mal não está fora, está nos nossos olhos. Para ver o mundo com olhos novos, é preciso ter olhar lavado. Ter a limpidez das madrugadas. Esta história foi contada por Domingos Cunha para explicar que, enquanto não purificarmos o nosso olhar; não temos olhos para ver o mundo.

 

 

Fonte. Vida Religiosa, artigo “A Cor dos Olhos”, autor Torres Neiva.