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Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

Frederick e Ilaria: Casal LMC de Itália em Açailândia - Brasil

 
 

 

 

 

 

O objectivo da formação é o de tentar reduzir os abusos das multinacionais de extração do minério e promover a organização e a consciencialização das comunidades para que encarem e articulem as negociações de forma unida e colectiva.  

 

 

 

Olá a todos,
Nós por cá estamos bem.

 

Hoje na hora do almoço tínhamos connosco cinco meninas dos 15 aos 17 anos, de uma comunidade vizinha da nossa casa, a quem tínhamos prometido partilhar um pouco da nossa "cozinha italiana". Fizemos macarrão e uma omeleta. Comeram, mas ficaram chocadas por não haver arroz nem feijão. Foi engraçado.

Ontem à noite choveu muito mas agora o tempo está bom, na verdade, recomeçou há poucas semanas o período da chuva após 6 meses da estação seca.


Esta tarde em Piquià, o Frederick acompanhou um curso de vídeo e eu estive a tirar apontamentos junto de uma instituição pública que organiza cursos de formação, para depois poder iniciar, sempre em Piquià, um curso de secretariado para jovens, e outro de cozinha para algumas senhoras, para aprenderem como preparar lanches e bolos para venda em festas (a economia informal é a principal fonte de rendimento aqui no nosso distrito).


Tirando isso, estamos a acompanhar a comunidade de Santa Teresa. A nossa paróquia é composta por trinta comunidades, sendo constituída por várias comunidades em aldeias rurais. Quatro comunidade são aqui do centro e três são do distrito industrial de Piquià. Actualmente, na Igreja de Santa Teresa, celebra-se a Eucaristia apenas à Quinta-feira, mas já existem vários grupos de catequese e um grupo de jovens. Cada comunidade tem seu próprio conselho de coordenadores. Santa Teresa, porém, ainda não tem nenhum, mas estamos a trabalhar para que se constitua um.

 

O Frederick continua a trabalhar no projecto “Justiça nos Trilhos”, organizando jornadas de formação jurídica e visitas ao longo da linha ferroviária de Carajas, onde a multinacional de exploração de minério “Vale” está a duplicar a via ferroviária (que serve para transportar o minério para o porto de São Luís) e a apropriar-se da terra de camponeses e dos quilombolas (os quilombolas são comunidades afro-descendentes, na sua maioria ex-escravos, reconhecidos por leis de protecção semelhantes às leis de protecção dos indígenas, ou seja, boas leis, mas que não são cumpridas, pelo menos aqui no Maranhão). O objectivo da formação é o de tentar reduzir os abusos onde se encontram comunidades locais e promover a organização e a consciencialização dessas comunidades para que encarem e articulem as negociações de forma unida e colectiva.

 

 Dentro de duas semanas haverá lugar aqui no Brasil (primeiro em São Paulo e depois em Açailândia) uma reunião "trinacional" com representantes de comunidades afectadas pela empresa Vale no Brasil, Canadá e Moçambique. A reunião, financiada por um sindicato canadense (USW) terá como objectivo o estudo de estratégias conjuntas de resistência e, no caso de Moçambique, onde os grandes projectos da Vale estão ainda no início, para alertar as comunidades dos abusos habituais, na esperança de que estes não se repitam como assistimos todos os dias aqui no Brasil.

Como dizem os membros do MST (movimento dos Trabalhadores Rurais sem terra) “globalizar a luta, globalizar a esperança!

 

 

"Algumas noites atrás, quando bebíamos uma cerveja, depois de me contar um pouco do seu passado, com o mais sereno e largo sorriso disse-me: “Bem, amiga, acreditavas que a vida era fácil?”… Podem imaginar como me senti!"

 

 

 Entretanto eu continúo as actividades na Pastoral da Criança. Sábado será no interior (área rural) para a última etapa da formação de um novo grupo.

Recentemente fiz amizade com uma jovem da minha idade, Lucimar, muito inteligente, muito alegre e, coisa rara por aqui, solteira e sem os inevitáveis 4 ou 5 filhos.

Lucimar está a tentar continuar os estudos trabalhando como secretária, mas quando falamos da sua infância parecem ouvir-se histórias do tempo da guerra. Décima primeira filha e última de uma mãe solteira, ela começou a frequentar a escola quando chegou à cidade, isto é, aos 10 anos. Antes disso, ela vivia numa comunidade agrícola sem água e sem luz. A sua mãe trabalhava como lavadeira e o seu irmão, um pouco mais velho do que ela, ia todas as noites para os matadouros públicos para ajudar na limpeza de resíduos e ganhar um pouco de carne para levar para casa. Todos os seus irmãos tiveram sempre que trabalhar desde pequenos para terem de que comer. Lucimar perdeu três irmãos muito jovens e, quando tinha dezoito anos, a sua irmã de vinte morreu num parto (num hospital!).

Algumas noites atrás, quando bebíamos uma cerveja, depois de me contar um pouco do seu passado, com o mais sereno e largo sorriso disse-me: “Bem, amiga, acreditavas que a vida era fácil?”… Podem imaginar como me senti!


Emfim, e assim se passam os dias… velozes. 

Acabaram-se as mangas da árvore em frente à nossa casa e agora é hora dos abacates (a fruta é maravilhosa, em contrapartida, os legumes disponíveis limitam-se a cenouras, cebolas, tomates e um único tipo de repolho).

Temos consciência de que somos um desastre, porque escrevemos tão pouco, mas temo-vos sempre presentes no pensamento.


Mil beijos a todos,

 

 

 

 

Ilaria e Federico, LMC's

Fonte: www.comboni.org