Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

Missão + Camarate

IMG_2692

 

"...para o ano haverá mais Missão +.

Vemo-nos lá?"

 

 

Estou em crer, para já, que o título sugere o sítio onde decorreu a atividade, apenas isso. Passadas algumas semanas da Grande aventura, “Missão + Camarate”, por si só, não faz justiça às emoções e sentimentos experimentados em tão pouco tempo.

 

O desafio era simples e os planos objetivos, aparentemente. No plano temporal tratava-se de uma semana (de 1 a 9 de Agosto). Já o plano espacial reservava-se à paróquia de Camarate (bairros das Loureiras, Torre, Quinta das Mós e Fetais). O plano temático, esse, prometia - “Missão: um projeto de felicidade”.

 

«Projeto» … Por projeto entende-se algo flexível, passível de alterações e ajustes constantes – aliás, é difícil esquecer que “Deus escreve direito por linhas tortas” e, por isso, convém contar com a Sua providência! Era fundamental ir com o coração disponível.

 

"Embora existisse um programa para cada um dos dias,

o que acontecia em cada momento,

nunca fazia parte dos nossos planos..."

 

O plano de trabalho era, também, aparentemente simples: às oito horas reuníamos para a oração da manhã seguida do pequeno-almoço. Por volta das dez horas os grupos de trabalho juntavam-se para que, uma vez preparados partirem para os bairros. No final da manhã voltávamos para o almoço e, já durante a tarde, retomávamos as atividades com as crianças. No fim do dia voltávamos ao local onde estávamos alojados – era a hora dos banhos, jantar, alguma conversa e oração da noite. À noite, tínhamos ainda a oportunidade de ouvir alguns testemunhos missionários e, após os mesmos, existia um momento de partilha entre todos os grupos, onde se conversava daquilo que se passara nos bairros, aspetos positivos e negativos, sugestões, dúvidas, etc.. Aproveitávamos também as orações para confiar ao Senhor alguns das nossas ânsias e receios e pedir a Sua intercessão. Noutros momentos ainda houve outras oportunidades de encontro – fosse para a celebração da eucaristia na e com a comunidade, fosse na partilha de refeições com pessoas que generosa e amavelmente as ofereciam ao grupo.

 

IMG_2689

 

“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” – como é tão verdade! Era incrivelmente bela a riqueza em cada partilha e a abundância de sentimentos e emoções experimentados em cada minuto, em cada hora, em cada dia. Entre músicas, corridas, pinturas, anedotas, danças, jogos tradicionais, “futeboladas”, guitarradas, apanhadas, escondidas, … aqueles eram dias fartos, plenos! Quantas lágrimas se soltavam entre alegrias! Quantas gargalhadas! Quantas amizades ficaram!

 

Embora existisse um programa para cada um dos dias, o que acontecia em cada momento, nunca fazia parte dos nossos planos – em cada lugar, em cada atividade, em cada rosto, em cada companhia, em cada oração, em cada canção, em cada dança, em cada

refeição, em cada… em cada nova coisa, mesmo que repetida infinita vezes, tudo tinha uma capacidade espantosa para nos surpreender. E como era bom!

 

“Unidos a Jesus amamos o que Ele ama”

 

Mas nem tudo era tão belo e romântico assim… Num ou outro momento em que aquela verdade, bem “nua e crua”, pudesse embriagar e incomodar, mascarada até nalguma revolta, as palavras do Santo Padre – “Unidos a Jesus amamos o que Ele ama” - faziam sentido e davam confiança.

 

Naqueles dias tive a certeza de que a experiência de Deus também acontece na frustração. Seria mais fácil fechar os olhos a algumas coisas, escondermo-nos de outras, agarrarmo-nos àquelas que tão bem já conhecemos e às quais estamos habituados e seguros… seria fácil querer, nas palavras de Karamozov, «devolver a Deus o bilhete de entrada para um mundo onde as crianças sofrem» mas, como nos lembra Francisco, “fechar os olhos diante do próximo torna-nos cegos de Deus”.

 

Há dias uma teóloga dizia que atualmente, já não há palavras belas que transformem as pessoas – “temos cada vez mais recursos e, por isso, as palavras já não seduzem. O terreno da missão passa por experiências gratificantes. E, na medida em que forem gratificantes, vou querer perpetua-las”, continuava. Explicou ainda que por «gratificantes» entendiam-se aquelas que criam autênticos “momentos de céu, momentos de paz”.

 

IMG_2609

 

Dou-me conta agora do quão justo é, na verdade, o título deste texto. Ali, em Camarate, tornou-se claro, para mim, que não nos podemos centrar apenas nos «problemas» sociais, mesmo que este tipo de sofrimento grite à consciência moral de cada um de nós – embora seja importante, não basta. Há outras dores ocultas e feridas abertas à espera de sararem e não tenho o direito de professar a fé em Deus se lhes virar as costas. A verdade é o caminho e a vida – se tivesse fechado os olhos à verdade de todas aquelas pessoas não teria sido transformada no Missão +. E, se é verdade que, àqueles que foram transformados, a fé se torna num novo modo de ver, acredito que esta experiência foi gratificante, um “momento de céu” e me faz querer mais.

 

Fica o desafio: para o ano haverá mais Missão +. Vemo-nos lá?

 

Até lá, farei dos lugares onde me encontro Camarate, e das pessoas com quem estou, os nomes e os rostos que guardo comigo – porque a felicidade é muito mais uma forma de ir do que um lugar onde se chega (com todas as alterações e Providência necessárias!).

 

IMG_3014

 

 

Por: Marisa Almeida.