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Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

UM LEIGO VOLUNTÁRIO EM MISSÃO HOSPITALEIRA EM TIMOR-LESTE

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O nosso amigo Mário, em missão em Timor-Leste com os Irmãos Hospitaleiros de São João de Deus, escreve-nos contando um pouco sobre a missão para a qual foi destinado. É com alegria e gratidão que podemos revisitar o que connosco partilha.

A missão dos Irmãos Hospitaleiros de S. João de Deus em Timor-Leste baseia-se na Casa de Formação em Díli e no Centro de Apoio à Saúde em Laclubar, distrito de Manatuto. É neste Centro que tenho estado a colaborar como voluntário desde início de outubro de 2019.

O Centro tem como missão principal o internamento temporário de pessoas com doença mental grave, com vista à sua estabilização, recuperação e reintegração familiar e social. Também faz o acompanhamento, a nível nacional e em articulação com os serviços de saúde distritais, de outros pacientes que permanecem em suas casas medicados.

Para levar a cabo estes objetivos, conta atualmente com o trabalho de uma enfermeira especialista em Saúde Mental e Psiquiatria (portuguesa), mais dois enfermeiros generalistas, de um médico de clínica geral, bem como de auxiliares de internamento, educadoras, responsável administrativa e técnicos de manutenção e apoio geral. Além disso, é também aqui o local de formação para os jovens aspirantes a futuros irmãos de S. João de Deus, no seu primeiro ano, junto dos doentes e necessitados como é o carisma hospitaleiro. Todas estas atividades estão sob a responsabilidade do Diretor do Centro e superior da comunidade de irmãos, o irmão-sacerdote José Manuel Leonardo Machado.

Qual o lugar para um leigo voluntário neste contexto? É dispensável, como apoio complementar ao quadro de pessoal? Talvez, tendo em conta os colaboradores existentes. Pode ser útil e benéfica a sua presença? Cremos que sim, como em qualquer outra situação de voluntariado, em que dar o seu tempo e afeto pode ser testemunho de amor e hospitalidade.

Em colaboração com a equipa de monitoras-educadoras, que desenvolvem várias atividades ocupacionais  com os pacientes ao longo da semana, fui procurando desde início observar, conhecer e acomodar-me de forma construtiva, no respeito pela realidade existente. Progressivamente, participo e intervenho em:

  • Atividades lúdicas, para estimulação de capacidades pessoais e promoção do bem-estar: jogos diversos, desenho e pintura, exercício físico, caminhada, canto e dança
  • Momentos de formação, sobre vários temas: promoção da saúde mental, importância da medicação, higiene pessoal e ambiental, civismo, geografia dos distritos, preparação para a alta
  • Tarefas que exercitam os pacientes para a vida do dia-a-dia na reinserção familiar: limpeza dos jardins e recolha desses lixos, ida ao mercado, ajuda na limpeza do internamento; são os pacientes que põem a mesa e lavam a loiça (rotativamente) e são ajudados a lavar a sua roupa.

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As principais limitações e dificuldades na ação voluntária, seja com os pacientes seja com os colaboradores, têm a ver com a comunicação. O conhecimento dos hábitos, tradições e valores é importante para a compreensão de atitudes e comportamentos e para não sentir estranheza perante o que é diferente.

Além disso, poder compreender e falar Tetum, a língua de comunicação natural em Timor-Leste (e que permite o diálogo entre a quase vintena de línguas locais) é uma necessidade fundamental para a integração e relação com as pessoas. Embora o Português seja também língua oficial, é conhecido e utilizado sobretudo na administração pública e contextos profissionais diferenciados (como acontece nos países que foram colonizados). Aqui no interior, apenas algumas pessoas falam um pouco em Português; não esqueçamos que, durante os 24 anos da ocupação indonésia, a língua portuguesa foi banida das escolas e a retoma demorará o seu tempo. O Português será sempre uma segunda língua, aprendida como língua estrangeira. Por isso, também os missionários, voluntários e profissionais estrangeiros devem aprender Tetum se querem uma integração plena.

Neste sentido, para além do estudo inicial que realizei antes de vir (e que acho indispensável), procuro ir aprendendo no dia-a-dia mas é sempre insuficiente para estabelecer uma conversação para além do trivial. Ter atenção que aquilo que se tenta dizer nem sempre corresponde ao que a outra pessoa entendeu.

Como voluntário psicólogo, isto limita a comunicação com os doentes, embora na sua generalidade não tenham indicação para psicoterapia, como acontece neste grau de doença. Ainda assim, a intervenção e o olhar na perspetiva psicológica da compreensão das limitações e necessidades de cada doente, das atitudes que servem e que não servem a sua recuperação e bem-estar, pode ser um contributo importante.

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Além disso, tenho ensinado Português a um grupo de jovens. E tenho articulado com a Fundação S. João de Deus a adoção para Timor-Leste do novo método de gestão das bolsas de estudo de mérito (BEM), através da Internet, e trabalhado na preparação dos conteúdos de cada bolseiro a colocar nesse sítio.

Acima de tudo isto, estou aqui porque sou cristão e porque partilho os valores da hospitalidade e da missão. Há cerca de um ano deixei de trabalhar profissionalmente, era hora de poder partir e dar algo de mim pelos irmãos em necessidade.

"Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa (…) ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou (…)" (1 Cor 13). A leitura da Palavra e a oração são o alimento espiritual que nos dá o amor, a vontade e a persistência, mesmo quando vacilamos ou nos parece que temos pouco para dar. Assim, participar em momentos de oração e Eucaristia - com a comunidade dos irmãos, com os pacientes e colaboradores, com a comunidade paroquial de Nossa Senhora da Graça - faz parte indispensável da missão, preenche-me de alegria e de amor, faz-me sentir parte da Igreja.

Que o Senhor da Vida, seu Filho Jesus, nossa Mãe Maria, São João de Deus e São Daniel Comboni iluminem a nossa vida no serviço constante a quem sofre ou tem necessidade!

Laclubar, 31 de dezembro de 2019

Mário Breda     

O Calor do Advento

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Vinda da Etiópia, chega até à nossa caixa de correio uma bela e sentida mensagem do nosso querido Pedro Nascimento, que, em missão, vive o primeiro Natal for de Portugal: um Natal em busca de Jesus, junto de um povo esquecido, por muitos, mas bem presente no meu coração.

Celebrámos ontem o Primeiro Domingo de Advento (em Portugal celebraram o III Domingo de Advento). Este será, certamente, o Advento mais quente da minha vida. Para além dos 35 graus que agora se fazem sentir, este será o Advento mais quente porque aqui, o tempo de preparação para o Natal está ainda protegido do consumismo exacerbado que em Portugal mata o nosso Natal.

Aqui não se gasta milhões com as luzes natalícias (muitas vezes não temos sequer electricidade ou água em casa), não se vê propaganda natalícia; não se vê a azáfama das compras de Natal e dos jantares e almoços de Natal. Aqui, simplesmente, se aguarda a chegada do Natal, em oração e contemplação, desejando que o Deus Menino nasça nestes lindos e sofridos corações. Aqui, entrego a Deus, esta realidade sofredora, que me destrói e me constrói, que me abre os olhos a uma realidade dura e bela, que me faz questionar o sentido do Natal e o modo como o vivo.

Jesus nasceu num estábulo humilde e pobre, rodeado de animais. Contemplando a realidade onde me encontro, são imensos os lugares onde Jesus poderia nascer aqui: na escola secundária, agora habitada por famílias gumuz, deslocadas de suas casas, tantas vezes sem esperança e com medo; nas famílias que visitamos e que muitas vezes nos oferecem para comer e beber do pouco que têm; na casa das crianças com quem eu e o David vamos brincar todas as semanas e que muitas aparecem descalças, sem roupa ou com as roupas rasgadas e todas as semanas a mesma roupa; na família que perdeu duas crianças, em simultâneo, na semana passada. Para todas estas realidades e muitas outras que não menciono o meu desejo é um só: Vem, Vem Senhor Jesus!

Confesso que tenho grande desejo de celebrar o Natal aqui! Será o primeiro Natal fora de Portugal, fora da família e claro que não será fácil! Mas é um Natal em busca de Jesus, junto de um povo esquecido, por muitos, mas bem presente no meu coração. Será um Natal em que também eu serei pequenino diante das dificuldades e desafios mas esperando a vinda do Príncipe da Paz, do Deus Menino, da Esperança que a todos quer iluminar.

O trabalho, aqui, começa a surgir: a biblioteca que estamos a iniciar, ainda com poucos livros (vamos comprando quando há dinheiro e quando os estudantes nos pedem algum livro em particular), mas que começa a ter vários estudantes; aulas de inglês na biblioteca; aulas de informática na biblioteca; estudo do Novo Testamento com alguns catequistas; actividades com as crianças nas aldeias; visitas e actividades com os jovens que vivem na escola secundária, deslocados de suas casas.

Sei que em Portugal estamos quase no Natal. Assim sendo, desejo a todas e todos, votos de um santo Natal, na certeza de que Deus virá e fará morada no teu coração! Que seja um Natal da Igreja Doméstica, da família e que em todos os lares haja um lugar para Jesus.

Pedro Nascimento

Falo-vos da missão das nossas vidas

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Já muitos me conheceram. Uns pelo que escrevo. Outros pelo sorriso. Uns pelo abraço. Outros pela palavra amiga. Uns pelos conselhos. Outros pelas lágrimas. Uns por o que ouviram dizer de mim. E outros pelas minhas escolhas. Uns me julgaram pelas minhas atitudes. Outros pela valentia. Uns por aquilo em que acredito. Outros pela coragem. Uns pela ousadia. Outros por tudo aquilo que ainda não fui capaz. Sou eu. Em tudo aquilo que possam dizer e escrever de mim. Sou eu a escrever a minha história. Sou eu com a soma das minhas escolhas certas e erradas que escrevo dia a dia o meu caminho e ouso viver assim de um jeito meio atrevido a missão para a qual nasci. E tu, quem escreve a tua história?

Às vezes vivemos tanto das vidas dos outros que nos esquecemos de viver a nossa própria vida, esquecemo-nos que somos os protagonistas da nossa história e que vida depende prioritariamente de nós. No fundo somos todos humanos, todos incompletos e ao mesmo tempo todos com ânsia de que se faça história em nós e através de nós. Todos somos essa semente corajosa que ousa viver de uma maneira concreta. A nossa história não depende da opinião alheia nem do nosso passado depende das escolhas diárias que fazemos e do bem que plantamos no mundo, do bem que semeamos dentro e fora das portas da nossa casa. Essa é a verdadeira missão da minha, da tua, das nossas vidas. A missão é urgente. O Amor é urgente. O bem é urgente. Tu és urgente. E a tua vida é urgente. É urgente vermos em nós a possibilidade de um mundo melhor e saber que depende de cada um de nós a sobrevivência do amor.

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 Esta é a minha forma de ver o mundo de viver de estar de crescer no amor na fé e na esperança. Não foi o partir que me fez melhor ou pior mas sim o saber e sentir que eu com a minha vida e as minhas escolhas posso fazer do mundo um lugar habitável por todos. Fazer dos pequenos mundos que habitam ao meu lado uma casa mais feliz. Estes pequenos mundos que vão cruzando o meu e me vão fazendo amar a capacidade de sermos mundos em movimento numa única direção. O amor.

Neste mês. Não tenhas medo de olhar para ti, de pensar um pouco sobre os teus propósitos de vida de refletir sobre como cuidas tu esta casa que é comum. Que tudo aquilo que nascer do teu coração seja obra concreta na tua vida e espalhes um rasto de bem por onde passares, com quem estiveres.

Se sentes que Deus te pede mais um pouco, não hesites, não deixes que o medo te afaste a esperança não deixes que as ilusões mundanas sufoquem o teu eu. Deixa-te levar e sentirás que em todos os momentos Deus te guiará pela mão, outras que te carregará em braços.  Ainda que algumas vezes pareça ausente, distante. Ele está aqui. Ele quer fazer das nossas vidas um lugar onde todos possam encontrar um pouco mais de luz, um puco mais de amor. Um pouco mais de Deus.

Tu és missão. Uma missão no mundo e para o mundo. A missão espera-te como és. O mundo espera-te no que de melhor possas partilhar com o outro. E eu? Eu acredito em ti. Eu acredito que que tu és capaz. Eu acredito que sou missão contigo. Aqui. Aí. Onde estivermos. Se em nossos corações houver sempre o amor de Deus.

 

Com fé e esperança,

Neuza Francisco

 

 

 

 

De Laclubar, Timor-Leste

O LMC Mário Breda está neste momento em Laclubar, Timor-Leste, e escreveu-nos sobre a sua missão, no dia 7 de outubro:

"Olá!
Depois de uma semana em Dili, ontem viajei para Laclubar, aldeia nas montanhas do centro, 3h desde Dili. Uma parte em boa estrada, já reconstruida, outras partes em estrada ainda mal. Os últimos 10 km demoraram 40 minutos. Mas isso não importa. Correu bem. É aqui que vou ficar, tem o centro de internamento de pessoas com doenças mentais, dos
Irmãos S. João de Deus. Um espaço grande, vários edifícios, grande horta, animais que comem os restos, tudo aproveitado. Montanha e ar puro.

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Hoje já começo a cozinhar para mim e a tratar da minha roupa e das limpezas. Já me abasteci. Para além dos funcionários timorenses, há uma enfermeira portuguesa que já está habituada a tratar dela, por isso assim continuamos. Há aqui um grande mercado ao domingo, para esta região onde vive muita gente em aldeias nas montanhas que demoram horas para chegar aqui, a pé, carga à cabeça ou a cavalo. Com o tempo, espero também ir a sítios desses. Na casa dos irmãos vive o superior, irmão padre hospitaleiro, açoriano. Um irmão timorense jovem, enfermeiro. E mais 5 jovens aspirantes, timorenses, que iniciaram este ano o seu caminho de formação para se tornarem irmãos hospitaleiros. Aqui há muitas vocações de rapazes e raparigas. Dou-me muito bem com todos, são simples, alegres, inteligentes, generosos.  O povo timorense é muito espiritual, de tradição animista. Existe a fonte sagrada, árvore sagrada (vi uma em Dili onde as mamãs vão colocar o cordão umbilical do seu bebé), casa sagrada que algumas famílias têm como habitação dos espíritos dos seus antepassados. Não é bonito? Assim, a ideia de Deus, de Jesus e de Nossa Senhora é muito sentida pelas pessoas, afinal também estão vivos em espírito. A fé no Sagrado Coração de Jesus e na Imaculada Conceição estão muito enraizadas em Timor. Neste momento, aqui na paroquia de Laclubar, a imagem de Nossa Senhora está em circulação ficando uns dias em cada aldeia, com procissão entre aldeias, a pé por caminhos de montanha, com entrega no início da aldeia seguinte, tudo isto com cânticos, orações, discursos protocolares e refeições partilhadas. Não vi, mas ouvi contar ontem e já tinha lido. A imagem volta à igreja paroquial de Laclubar em fim de novembro para a festa da padroeira Nossa Senhora da Graça. Espero um dia poder participar nestes momentos que me tocam profundamente, tal como as missas a que já assisti.

Quem se evangeliza sou eu que fico profundamente impressionado com a fé das pessoas e interiormente tocado pelo Espírito. 

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Entretanto, vou aprendendo Tetum pois é indispensável para comunicar. Já me desenrasco um bocadinho. Mas a missa é em tetum, só entendo algumas palavras. Os cânticos são de uma sonoridade contagiante, igreja cheia e por fora a toda a volta; toda a gente canta, não só o coro. Os cânticos são muito bonitos, em Tetum, um ou outro em Português (também gostam de incluir). Bem, comecei por querer dizer pouco e já me alonguei.

Tenho de ir tratar do almoço que já é tarde, 13h, aqui +8. Envio fotos (poucas) da viagem de Dili para Laclubar e desta aldeia onde vou viver e fazer parte da comunidade, com amor.

Um abraço,

Mário"

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AQUI, ETIÓPIA

Quando Deus coloca no nosso coração o sonho missionário, no nosso coração e mente começam a surgir ideias e desejos. Sonhamos com coisas, por vezes, tão difíceis de alcançar.

Quando chegamos ao local onde Deus nos envia, com as diferenças culturais, com os problemas de língua (mais de 60 línguas são faladas na Etiópia), as diferenças nos sistemas de educação, saúde e segurança, começamos a entender que as nossas ideias preconcebidas não passam de miragens, por vezes sem qualquer utilidade.

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Porém, se colocamos Deus como o centro da missão, compreendemos que Ele não nos pede causas impossíveis ou milagres, mas sim que sejamos testemunhas do Seu Amor (com tudo o que isso implica, incluindo dar a vida), portadores de esperança, que façamos comunhão com as pessoas. Amamos muito pouco a Deus se não amamos as pessoas.

De facto, durante este tempo na Etiópia verifico que as dificuldades são muitas, que o meu campo de trabalho fica muito limitado. Mas todos os dias me vou apercebendo que o mais importante não é o número de trabalhos que se fazem ou os projectos que se implementam. O importante é a quantidade de amor que colocamos nas relações com as pessoas! No início, saber o nome de cada um, saber a sua família, conhecer a sua história. Pequenas coisas que ajudam a criar amizade e comunhão. E como é bonito quando vou na rua e as crianças com quem jogo futebol dizem “Opetrosa” (Pedro, em gumuz).

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Durante o tempo em Addis Abeba, enquanto estudava amárico tive oportunidade de fazer voluntariado, alguns sábados, com as Irmãs da Caridade de Madre Teresa de Calcutá. Ver tanto sofrimento, fez-me sofrer imenso! Mas ajudou-me a perceber que o que fazemos, se é por amor a Jesus e aos nossos irmãos nunca será insignificante! O que fazemos não é por dinheiro, interesse ou desejo de reconhecimento! É gratuito!

A vida é um dom de Deus e todas as pessoas são para nós dom e mistério de Deus. O povo gumuz, junto de quem, agora vivo, é um dos povos mais marginalizados da Etiópia. Depois da Páscoa, devido a questões tribais, várias aldeias gumuz foram incendiadas, pessoas mortas. Durante várias semanas, no espaço das irmãs combonianas, em Mandura, viveram mais de 800 pessoas gumuz, sem casa e sem esperança. Em Guilguel Beles, os refugiados foram colocados numa escola estatal. No início, os missionários combonianos ajudaram com comida e roupas, foram visitando as pessoas. Depois o governo assumiu o controlo da situação. Ainda hoje lá estão. Famílias, imensas crianças! Quando lá vou, para cumprimentar as pessoas, sinto que somos chamados a ser portadores de esperança para aquelas pessoas, desanimadas e com medo de regressar às suas aldeias, onde não são desejados pelos povos vizinhos.

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O importante é referir que não existem barreiras ao Amor! Lembremo-nos do Hino da caridade, de São Paulo ( 1Cor 13).

Estou aqui há um mês, junto dos gumuz! Depois de ver a realidade é tempo de iniciar trabalho. Várias ideias começam a surgir! Pedimos a Deus para que o nosso trabalho seja sempre pelas e para as pessoas.

Com humildade vos peço: rezem por mim e pela minha comunidade! Rezem pela Etiópia!

Pedro Nascimento

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Batizados e Enviados | A Missão na ação Evangelizadora do Cristão.

No passado fim de semana, 28 e 29 de setembro de 2019, em Fátima, teve lugar as Jornadas Missionárias Nacionais deste ano.

Intituladas com a temática: “Batizados e Enviados. A Missão na ação Evangelizadora do Cristão.”

As jornadas situaram-se precisamente entre o Mês Missionário Extraordinário convocado pelo Papa Francisco, para outubro e no ano Missionário declarado com a temática: “Todos, Tudo e Sempre em Missão.”

As jornadas surgem assim, como mais um marco importante para a caminhada de cada Missionário, de cada batizado.

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Os Leigos Missionários Combonianos não faltaram à chamada e assim estivemos representados.

Com alegria e ardor missionário, por meio de diversas conferências ficou notória a urgência de uma reflexão sobre a Missão da Igreja no Mundo, sobre um dinamismo evangelizador e universal.

Conferencistas de excelência, que nem D. Manuel Linda, Pe. Eloy Bueno, Pe. José Silva, D. António Couto, D. José Cordeiro, deixaram a certeza de um caminho já iniciado que precisa de ser continuado. Que existem tarefas comunitárias mas também individuais: A responsabilidade é de cada Cristão.

Trabalhou-se conceitos como Interculturalidade e aculturação.

Padre José Silva, Missionário do Verbo Divino, mostrou-nos como urge derrubar muros… “Missão é derrubar muros.”

Nestas jornadas, ficou clara a intensa relação entre os sacramentos de iniciação cristã com a Missão.

D. António Couto, com recurso aos Atos dos Apóstolos – Pentecostes, mostrou-nos que o grande protagonista e mestre dos novos tempos é o Espírito Santo. Chega mesmo a dizer que são precisos “novos Pentecostes”… que são precisos “novos Pentecostes”, em Fátima, Lamego, Lisboa…

Ainda no sábado pelas 21h30, a todos foi possível ver, ouvir e sentir missão, foi a vez dos mais jovens contarem as suas experiências em contexto missionário, jovens que fizeram formação com a FEC.

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De forma descontraída, demostraram com as suas palavras e pequenos vídeos e fotos como foi bom, partilharem suas vidas. De louvar a atitude de serviço, empenho e dedicação destes jovens, jovens missionários de coração generoso.

No domingo de manhã teve lugar a conferência de D. José Cordeiro, Bispo de Bragança, que a todos falou da importância da Eucaristia e da Oração para a Missão.

“Sem liturgia não há missão; sem Oração não há Missão.” D. José Cordeiro, dá ênfase e afirma que a Eucaristia é fonte e ponto culminante em toda a Evangelização.

Durante todo o evento, entre os temas, foi possível sempre um pouco de convívio e existiram momentos com dinâmicas engraçadas por parte de um grupinho de Jovens Sem Fronteiras.

Como não podia deixar de ser, as Jornadas Missionárias chegaram ao fim com a Eucaristia partilhada pelos presentes.

Gostaria de terminar esta pequena partilha, fazendo o eco de um pensamento que só os “adultos” na fé talvez entendam: “Se o coração não arde, os pés não andam.”

Um abraço amigo,

Sofia Coelho

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Casamento dos LMC: Laura & David

No fim de semana 7 e 8 de Setembro, alguns LMC e formandos rumaram até à ilha da Madeira para partilhar um momento especial com dois formandos LMC, a Laura e o David. Pudemos partilhar com eles o dia do seu casamento e alguns dos preparativos, juntamente com a sua família e amigos. Foram dias especiais, de alegria e de partilha, de amor e de fé. Foram dias intensos, mas definitivamente inesquecíveis.

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No sábado dia 7 de setembro, pelas 15h celebrou-se o casamento da Laura e do David, na Paróquia do Cristo Rei na Ponta do Sol. Foi uma cerimónia bonita, com simplicidade e emoção próprias de um momento destes de união. Foi acompanhado por um coro infantil que trouxe uma jovialidade e alegria especiais a esta celebração. Foi sem dúvida um momento onde Deus se fez presente nas famílias, nos amigos e principalmente no rosto da Laura e do David.

Que esta união e compromisso os faça crescer na fé e na intimidade com Deus, como casal. E que S. Daniel Comboni interceda sempre por eles e pela família que agora iniciam!

Sejam felizes!

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Missão na Terra Vermelha: Subir ao Monte

Saídas em comunidade – Pedro, David, Pe. Endrias e eu.

Saídas em comunidade – Pedro, David, Pe. Endrias e eu.

 

Entrar na nova cultura é uma viagem que requer dedicação, ir conhecendo de tudo um pouco. Não só ver o cinzento do painel, mas também, e sobretudo, contemplar as diversas cores do mesmo e pintar com mais força os rosas, os verdes, os azuis, os amarelos, os vermelhos,... É saber apreciar, como uma criança curiosa por descobrir este mundo e o outro, embevecida sobre o funcionamento das coisas. Sem juízos. Sempre de olhos novos. O que é muito difícil, principalmente quando já se é adulto, quando já se traz uma bagagem, vícios, opiniões sobre tudo e mais alguma coisa.

Entrar na nova cultura, a tão chamada e bendita inculturação, é também apreciar os momentos em que estamos na escola com os companheiros das aulas de amárico e outras línguas, os serões com a comunidade dos MCCJ (Missionários Combonianos do Sagrado Coração de Jesus), as orações em comunidade, as visitas a museus, a comida (que aqui é bastante diferente e quase sempre com um toque de berber, uma especiaria típica de cá, que a tudo dá o seu travo a picante), as saídas em comunidade para comer um gelado ou beber uma coca-cola (sim, aqui também há disso!).

Entrar na nova cultura, não é só beber do choque cultural que vos falava no último artigo, um choque que nos leva a descer a montanha. É também sentir a sede de encontrar Deus no meio de tudo isto e subir ao monte. Escutá-lo, orar cada dificuldade que vai surgindo. Como agora o faço – subo ao monte. Tivemos cerca de duas semanas de pausa das aulas de amárico (pois a escola entra em férias) que nos deram a possibilidade de ir uma semana a Benishangul-Gumuz, para onde iremos iniciar a missão em Setembro (Deus queira), e de uma semana de Exercícios Espirituais.

Pois é em Exercícios que me encontro. Um tempo que tem sido importante para mim, para me renovar, para subir ao monte e falar com Deus. Tem sido um tempo de rezar tudo o que vi em Benishangul-Gumuz.

E o que viste lá? Recordo como se fosse agora o dia em que fomos às vilas desta região, onde apenas habitam os Gumuz, para celebrar a catequese. Saímos de casa por volta dessas 16h30. Viajei na parte traseira da 4x4, ao ar livre, ainda que houvesse para mim um lugar cativo no seu interior, o que era mais seguro visto que a qualquer momento poderia começar a chover torrentes (o que é muito típico aqui nesta altura do ano, pois estamos na kremt gizê (traduzindo do amárico, estação das chuvas). Porém, preferi a visão do lado de fora por ser sempre mais original! A viagem do lado de fora também iria dar lugar à convivência com os catequistas Gumuz que iríamos recolher pelo caminho (mal eu imaginava que a traseira se iria encher deles). E assim foi: pelo caminho, rumo a uma das vilas Gumuz fomos recolhendo os muitos e jovens catequistas. Não tenho a certeza, mas na traseira da 4x4 poderíamos ser uns 16. Contemplava aquela juventude de catequistas. Falavam e riam imenso entre si. Falavam na sua língua, Gumuzinha (outra que terei que aprender), pelo que eu não percebia nada! Na minha cabeça construía histórias e frases em amárico para tentar conversar com eles. Eles também sabem falar amárico, porém nem todos os Gumuz o sabem. Por isso, estes são catequistas escolhidos pelos MCCJ por poderem ser uma ponte entre nós, missionários, e o povo Gumuz. Além de serem eles a dar as catequeses, são também eles que fazem a tradução amárico-gumuzinha, sendo os intermediários entre nós e o povo Gumuz.

Lá ganhei coragem e iniciei a conversa com um dos catequistas. Trocámos meia dúzia de frases. Senti amizade e o ausente olhar de que sou diferente. O povo Gumuz é um povo amigo. Diferente da reacção comum da parte de muitos outros Etíopes, que à nossa passagem nos chamam de Farengi (estrangeiro), os Gumuz olham para nós com um sorriso. Por eles somos vistos como amigos, como aqueles que se lembraram do seu povo e que os têm vindo a proteger. São bem negros, diferente do típico Etíope que por norma tem uma cor de pele mais castanho-leite. Também por isso, são um povo tão marginalizado, não sendo considerados por muitos a verdadeira “raça” de etíopes.

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Um dos catequistas, Gumuz, a preparar-se para a catequese

A determinada altura, os catequistas foram sendo distribuídos junto de diferentes casas. Com eles saímos da carrinha e fomos chamando crianças e jovens a participar nas catequeses. Um aperto de mão, um olhar nos olhos… como gostava de os olhar nos olhos! Muitos chamámos, mas nem todos vieram. Ainda vivem o medo de sair de suas casas, dada a situação que sucedeu em Junho (em que foram atacados pelo povo Amara). Ainda assim, posso-vos dizer que muitos foram os catequizandos que, no escuro daquele entardecer, encheram aquela casa feita de paus, onde celebrámos as várias catequeses.

O que vi e vivi naquela semana em Benishangul-Gumuz despertou em mim um duplo sentido de emoções. Entre ideias que surgiram de projetos a começar, surgiu também o medo, a sensação de incapacidade. Eis que esta semana de Exercícios foi tempo de renovar a confiança, a mesma que me fez dizer SIM, no dia do meu envio, como Maria, “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim a Tua Palavra”. Ao subir ao monte percebo que, efetivamente, não sou capaz de tamanha missão. Não sou, e não somos. Sozinhos não somos. Assumir a nossa incapacidade humana, as nossas fragilidades e a nossa dependência do Amor de Deus é, por vezes, tão difícil! Ser humano é querer tantas vezes ter o domínio da nossa vida. Porém, que não nos enganemos. Não te enganes Carolina, não és dona da tua Vida. Ela é um presente de Deus. Aqui, curiosamente em Exercícios Espirituais, vivi o dia da Transfiguração do Senhor, encarnando-a. Orei. Deixei (e vou deixando) que esta transfiguração do Senhor aconteça em mim. Na verdade, só tenho que “não temer”! Pois, aqui neste monte aceito novamente o convite de Deus – “Levanta-te, toma a tua enxerga, a tua cruz, segue-Me, assim como és… com medos, fragilidades, erros, mas também, dons. Aceita-te como Eu te criei! Tu, segue-me! E eu sigo-O.

E é seguindo-O que vos deixo o meu terno abraço. Peço-vos especial oração pela missão que Deus quer que ali construamos. Que mais que ela seja fruto das nossas ideias de missionários europeus, que ela seja fruto da inspiração do Espirito Santo, pois a missão nunca será nossa. A missão é de Deus.

Vossa amiga Leiga Missionária Comboniana Carolina Fiúza

 

​in REDE - Revista Digital Diocese Leiria - Fátima, nº30 , 25 de Julho de 2019 (disponível em https://leiria-fatima.pt/noticias/subir-ao-monte/)

Volto a subir à montanha

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Escrevo-vos contemplando a paisagem. O sol já pouco se vê mas, consigo ver ainda a silhueta do vulcão alumbrado pela lua. Hoje voltei a subir à montanha, um dos lugares onde baixo todas as defesas e, consigo imaginar do outro lado do pôr-do-sol o rosto de todos os que deixei não para trás, mas todos aqueles que me deixaram e deixam voar continuamente, ainda que a medo, todos aqueles que confiam neste plano maior que Deus tem para cada um de nós. Para mim. Fixo no horizonte, eu e Deus. Só eu e Deus. Ele permite que me aproxime, abraça-me através da maravilha que consigo observar. Espera-me em silêncio no cimo desta pequena montanha, todas as vezes em que penso não ser capaz, todas as vezes em que a realidade é cruel, todas as vezes em que tudo parece escuro, em que tudo se torna demasiado pesado para carregar a duas a três, entre todos. Nesses momentos eu subo à montanha, vou largando na subida as pedras mais pesadas que carrego na minha mochila, para poder avançar. Subo em busca do silêncio, em busca da esperança, em busca de mim. Em busca de Deus.

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O sol já deixou a pequena montanha, fico eu e todos os pensamentos, fico eu e o clamor de todos os que me chegam assim, em busca de abrigo, em busca de amor, em busca de Deus. Durante aqueles instantes gigantes sou também parte da natureza que me envolve.

Subir à montanha permite-me sair de mim, observar com tranquilidade a natureza do que me rodeia, sentir tudo o que trago dentro, sentir que o amor também é feito das quedas, também se constrói com as pedras do caminho. Permite-me, ver a luz. Deixo-me abrir os olhos, já não vejo escuridão que carregava na subida, vejo as pequenas luzes que brilham entre este povo, sinto essa presença divina junto de todos nós nessas pequenas luzes, nesses corações dos que buscam, na esperança dos que acreditam, na perseverança dos que não baixam os braços frente à dor, nos joelhos dos que oram, na coragem dos que arriscam ir mais longe, e vejo então a mancha de luzes que permanecem acesas em mim.

E, já baixando a pequena montanha, sinto de novo o envio de Deus. Ele convida-me mais uma vez a ir ao encontro dos mais pobres e necessitados, junto de todos aqueles que me abrem diariamente as suas portas e, junto de todos aqueles que ainda esperam a minha chegada. Ele alivia a minha carga e, faz-me voltar a sentir alegria de ser missão no único caminho possível, o amor.

 

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Que todos sejamos capazes de subir à montanha as vezes que necessitarmos no decorrer desta caminhada que é a vida. Que todos sejamos capazes de esvaziar a mochila que nos acompanha em todos os momentos. Não tenhamos medo de falar de tudo o que nos vai dentro nos momentos em que estamos a sós com Deus.

 

Com amor e gratidão,

Neuza Francisco

Missão na Terra Vermelha

Tudo é necessário, até desenhar o choque cultural.

A comunidade de LMC em Adis Abeba – David, Pedro e eu.

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O choque cultural. O útil e necessário que sempre terá o seu lugar para todo e qualquer um que esteja em contacto com outra cultura, principalmente se uma é tão discrepante da outra. Chegou o meu tempo. Sento-me e contemplo este doce-amargo tempo, prestes a fazer a segunda viagem para o Quénia (uma vez mais, por causa do visto de residência que mostra a sua resistência em dar descanso).

As nuances de cor-de-rosa que se apresentavam no céu de Adis Abeba são agora também tocadas pelo contrastante e frio cinza. Não digo que o tempo da paixão acabou. Haverá sempre coisas bonitas aqui a descobrir. Porém, este é também um tempo necessário para ver a realidade tal qual como é, ainda que seja uma apreciação mediada pelo meu olhar. É este o choque cultural que me tem habitado, desenhado pelo que vou sentindo.

Desenhado pela diferença da língua (amárico e inglês), que muitas vezes me faz pensar que o falar noutra língua nos faz sentir coisas diferentes ou de uma forma diferente. E é uma coisa sobre a qual vale a pena pensar – “como se sente noutra língua?”. Desenha-o também o sentir que sou mesmo diferente do povo etíope e que essa diferença (infelizmente) tem tantas vezes um sentido depreciativo, ainda que teime em recusar essa ideia por querer tomar e fazer parte com eles. Entre vozes e olhares que hoje me fazem caminhar pelas ruas sem direito a olhar muito para os lados, não vá surgir o típico “Farengi (estrangeiro)!” vindo de alguém que apenas quer provocar; entre a tendência para venderem tudo mais caro a partir do momento em que vêem o branco tingindo a pele; entre este ver e sentir a tamanha pobreza de muitos e sentir esta incapacidade de poder fazer o que quer que seja (até porque, muitas vezes, o dar dinheiro não ajudará… pelo contrário, não romperá o ciclo da necessidade de pedir na rua). Também o sentir que os meus olhos muitas vezes já recusam ver a pobreza (porque dói muito vê-la), tornando-se tantas vezes impermeáveis ao sofrimento daquela vida que se encontra ali no chão. É também a situação político-social que hoje se vive aqui parte deste desenho. Curiosamente, foi notícia em Portugal: em meados de Junho o líder do governo da região de Amhara (uma das 9 regiões da Etiópia) e o chefe do Estado Maior do Exército foram assassinados, assim como outras importantes figuras. Desde então, o controlo aqui aumentou: a internet é muito limitada para que através dela não haja fluxo de informação, há mais polícia nas ruas a controlar autocarros e táxis, etc. talvez possa dizer que não sinto, por isso, uma insegurança aumentada. No entanto, inesperadamente, surgem notícias de vidas que partem vítimas de conflitos políticos, de pessoas que querem gerar a desordem e ter poder e supremacia num país onde residem grandes divisões entre regiões e grupos étnicos. E por isto peço a vossa oração para que todo este confronto entre cidadãos e governo apazigue.

Bonito desenho. São estes alguns dos traços que formam o desenho do choque cultural – esse importante e inevitável tempo que nos faz manter ainda mais próximos de Deus. Que me faz perguntar tantas vezes “Onde estás Tu aqui?” e redescobri-Lo, reinventá-Lo nas coisas mais simples. Pois sim, Deus também (e sobretudo) está nas coisas simples. Relembro tantas vezes vários livros, cheios de teorias teológicas mas com muito sentido prático, que li aquando do meu tempo de discernimento para a partida em missão. Um deles, de Vasco Pinto Magalhães. Onde há crise, há esperança. O título não diz tudo, mas já diz muito. É reler nestas várias crises e cruzes uma oportunidade de renascer. Tal como Jesus na cruz. Penso mesmo que a vida é isto – um sucessivo e diário morrer para que se (re)nasça com mais vida. E tantas vezes nos embrulhamos nestas teorias, mas é na dor, na crise que somos mais capazes de bater à porta de Deus e pedir permissão para entrar, pedir aquele colo para nós mesmos e para os demais. Como é lógico, Ele nunca recusa.

Dizia que Deus está sobretudo nas coisas simples. É nas idas às Irmãs de Madre Teresa aqui em Adis Abeba com os meus companheiros de comunidade, que tenho encontrado essa simplicidade de Deus. Enquanto fazia Fisioterapia a uma senhora que sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e que por isso ali se encontra há cerca de 6 meses, pude contemplá-la – a ela e à simplicidade. Foi a primeira vez que nos tocámos. E foi nesta primeira vez que senti o quanto queria ser amada. Por cada frase em amárico que eu dizia, esboçava o maior sorriso. Queria “cativar-me”, como a raposa queria ser cativada pelo Principezinho. Pedi desculpa porque o meu amárico não era o melhor, ao que me respondeu:

- Amariña betam go bez! Anchi betam qonjo nesh! (O amárico está muito bem. Tu és muito bonita!)

Sorri. Retribui elogios:

- Yeanchi mulu kemize betam qonjo new! (o teu vestido é muito bonito).

O amor é isto. Simples e só vive se o “usarmos”. “Se hoje ouvirdes a voz do Senhor não fecheis os vossos corações” (Sl 94), recordo nos últimos dias este salmo que tantas vezes ouvi a minha querida mãe cantar na Eucaristia das 9h da manhã. E quantas não são as vezes que o nosso coração se fecha e endurece por esta falta da “Voz do Senhor”, do amor. Quando é tão simples; basta isto: não ter medo de amar.

Um terno abraço de quem vos ama,

LMC Carolina Fiúza.

 

​in REDE - Revista Digital Diocese Leiria - Fátima, nº30 , 25 de Julho de 2019 (disponível em https://leiria-fatima.pt/noticias/tudo-e-necessario-ate-desenhar-o-choque-cultural/ )