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Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

"Tudo posso n'Aquele que me dá força" (Fl 4, 13)

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Que bonita é aquela África de madeira que se encontra aos pés de Cristo. E quanto do olhar de São Daniel Comboni deixo que me penetre, deixo que me contemple. E quanto de mim entra naquele olhar. Recordo as palavras de alguém que um dia me disse "é impossível que aquele olhar não te penetre, não nos interpele". E confirmo-as a cada vez que enxergo esta imagem do nosso incansável São Daniel Comboni.

Esta é a imagem sobre o altar que contemplo na capela da casa dos MCCJ de Madrid (onde hoje me encontrarei até por volta das 16h, hora a que o LMC David me virá buscar para, juntos vivermos o fim de semana em Arenas de San Pedro, a cerca de 160 km daqui) na qual não resisto a entrada para um momento de estar com o Senhor. A Ele lhe peço pela missão. Não somente pela "minha" mas a de cada um. A dos que partem. A dos que ficam. É na partida que está o amor também. A partida, o deixar o que temos para ganharmos algo maior: a liberdade da entrega a Cristo.  E falar de partida não é somente a partida física. Mas também a partida de nós mesmos. O sair de ti próprio todos os dias. A cada momento. É isso que hoje continuo a procurar, mas que hoje se torna fisicamente mais "fazível". Parto da minha terra em busca da sabedoria e graça necessárias para que, de futuro, melhor possa colocar os meus dons a render. Assim nos próximos meses estarei em Madrid junto da família que escolhi, a família Comboniana, num curso de Missiologia (cujo programa desde cedo me deixou de coração ardente e de olhos brilhantes... confesso até que, arde em mim aquela ansiedade miudinha comum nas crianças nos dias antes de tornarem às aulas). É isso que hoje aqui, diante desta África aos pés de Cristo, também agradeço: a possibilidade de crescer mais em sabedoria e graça.

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Na certeza de que sou frágil mas que, no seio de uma comunidade que vive pelo e para o amor, me torno mais forte. Porque "tudo posso nAquele que me dá força" (Fl 4, 13).

"Tudo posso nAquele que me dá força" - repito. Ecoa isto em mim. Só com Ele e através dEle poderei ter esta capacidade de sair de mim, ir ao encontro do amor, ser livre na medida em que confio nEle e nas suas mãos, amar sem medida. "Deus não escolhe os capacitados mas capacita os escolhidos". Hoje entendo tão bem isto... e rezo a Deus para que me capacite para a missão para a qual fui destinada. A mim e a todos quantos vêem comigo! A família. O namorado. Os amigos. As pessoas. Cada uma, à sua maneira, é parte desta missão e sinto-me responsável por trazê-las também comigo.

 

"Tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas." (Antoine de Saint-Exupéry)

Assim é... Rezo por cada um, pela missão de cada um. Rezem por mim também, peço-vos. Obrigada do fundo do coração pela confiança... E mais do que em mim, em Deus. Tudo isto - e toda eu - só somos possíveis através dEle.

Tomai, Senhor, e recebei 
toda a minha liberdade
a minha memória
o meu entendimento 
e toda a minha vontade
tudo o que tenho e possuo
Vós mo destes; 
a Vós, Senhor, o restituo
Tudo é vosso
disponde de tudo, 
à vossa inteira vontade. 
Dai-me o vosso amor e graça
que esta me basta.

(Santo Inácio de Loyola)

Estamos juntos, sempre.

 

LMC Carolina Fiúza

Natal em Moçambique

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Nas vésperas de Natal quase que só me apercebia da sua proximidade cada vez que ia rezar e ‘dava por mim’ a folhear a Liturgia nas páginas do Advento.

Sei que, muito provavelmente, se não estivesse aqui, tudo em meu redor evocaria o Natal. A proliferação de natais comerciais trataria de me enquadrar nesta estação a partir do terceiro trimestre do ano, praticamente, num jogo astuto e paulatino.

Entre os jogos de luzes, as decorações interiores e exteriores, sugestões tanto para os Menus cada vez mais requintados como para o dress code da noite de Consoada e do almoço de Natal, a magia que se sente nas ruas das cidades, as típicas músicas da quadra (‘mais do mesmo’ mas, até os clássicos deixam saudade), … Entre um ou outro jantar entre amigos e grupos disto e daquilo, nada deixaria escapar a atenção, nem mesmo dos mais distraídos, para ‘O que está para chegar’.

Aqui, não há nada – disso. Nas cidades testemunham-se alguns sinais de ‘natais importados’. Mas aqui, não. Os sentidos não são invadidos por esta avalanche de estímulos. Não há o frio e os vidros embaciados que deixam ver as luzes a piscar. Não se ouvem as músicas corriqueiras. Não se sente, nem se adere, à bulimia das compras nem dos presentes – e, muito menos, das aquisições e das ‘necessidades’ de última hora. Não se assiste ao ‘sozinho em casa’ na televisão. O calor é demasiado para se substituírem os chinelos, as saias ou calções e as t-shirts por roupa mais quente. Não se publicita o bacalhau nem o azeite virgem extra. Não há o bolo- rei, as rabanadas, filhoses ou bolinhos disto e daquilo. Não se impingem brinquedos nem se embrulham promessas de pequenos paraísos instantâneos e de curta duração.

Confesso que, na semana que antecedeu o Natal, eu me senti um pouco apreensiva: por ser o meu primeiro Natal na Missão, por sentir saudades da família, particularmente, nesta quadra, por ser tudo tão único e diferente do que estava habituada, … e até por não termos tido energia nem água nesses dias, dificultando a comunicação e desafiando a criatividade…

Mas, este ano, o Menino Jesus trouxe-me esta aprendizagem: o Natal não é ornamento.

Ao nosso redor pode parecer Natal, mas nunca o será se ele não estiver já dentro de cada um de nós. O Natal é, também, movimento, uma itinerância. Temos sempre de caminhar para o encontrar. Se queremos ver uma ‘grande luz’ temos de nos levantar e partir; temos de ir ao encontro das manjedouras onde se encontra o sofrimento humano; temos de voltar ao estaleiro onde nos deparamos com a simplicidade; temos de regressar ao presépio onde a esperança de Deus e a esperança da humanidade se encontram - mas, com a confiança de que, entre o silêncio e a palavra que procuramos, uma estrela nos guiará, sempre.

O Natal, acredito, acorda-nos para voltarmos às nossas verdadeiras raízes, para o primeiro sonho de Deus para cada um de nós. A infância de Jesus é, também, a nossa infância. É por isso que, depois de uma espera demorada encontramos paz quando, finalmente, repousamos em Deus.

 

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Curiosidade…

Depois da independência Moçambique tornou-se um estado laico. No entanto, o feriado do dia 25 de Dezembro foi preservado, não por ser dia de Natal mas como o Dia da Família. Assim, neste dia, independentemente da religião que professem, as famílias encontram-se e celebram o dom da Família (claro que, para a comunidade cristã, este dia é ‘mais do que isso’, é o dia do nascimento de Jesus, em que a Salvação e a verdadeira Paz descem à Terra). Assim, desejavelmente, reúnem-se para confraternizarem e recuperarem forças para o ano que está por vir – mas, afinal, não é, também, isto o Natal?! No Natal, cada vez que celebramos a esperança conseguimos dizer no nosso coração “a Humanidade tem futuro”.

 

 

 

Deixo parte de um poema de José Tolentino Mendonça (“O Presépio somos nós”) que me acompanhou nas últimas semanas:

 

O Presépio somos nós

É dentro de nós que Jesus nasce

Dentro de cada idade e estação

Dentro de cada encontro e de cada perda

Dentro do que cresce e do que se derruba

Dentro da pedra e do voo

Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo

Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece

 

 

Esperando que tenham tido um Bom Natal,

Votos de um Feliz Ano Novo,

Marisa Almeida.

Comunidade de Portugal - Experiência e ilusão

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As qualidades de cada uma podem enriquecer a outra.

Este tempo que passamos em comunidade, o vivemos como um período de preparação para a missão.

A ruptura com a vida conhecida até agora, trabalho, convívio com os amigos, família, prioridades de uma sociedade de consumo, etc. mudam para chegar a uma sociedade de subsistência. Fazendo-nos repensar o que de facto são prioridades e/ou necessidades de verdade.

Estando sempre focadas, na missão e com olhos fixos em Jesus o nosso planeamento comunitário começa quando nos damos conta da riqueza que temos, a experiência de uma e a ilusão da outra, permitindo-nos ultrapassar os desafios que diariamente somos confrontadas.

Medos, desânimo na aprendizagem da língua, inseguranças de não responder às expectativas e necessidades da missão, dificuldade de adaptação e todos outros pensamentos que muitas vezes nos assombram, rapidamente são ultrapassados com momentos de respeito mútuo, oração e partilha.

Com a nossa tentativa de entendimento as gargalhadas se fazem presentes, pincelando com muitas cores os nossos corações, de amor e alegria.

LMC's Cristina e Teresa

Aprender a amar…

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Foi um sonho… que se tornou realidade! Tudo surgiu desde a primeira vez que ouvi o testemunho de um padre missionário e pelo qual me maravilhei com tamanha intensidade de amor vivido e partilhado. Era adolescente e desde aí nasceu em mim uma enorme vontade de também querer amar assim.

O tempo foi passando e quase vi o sonho fugir entre rotinas, responsabilidades e trabalho… Mas, Deus sabe o que faz e não podia deixar um sonho tão rico morrer em vão. Ele soube-me levar pelo caminho certo, conduzindo-me pela caminhada do Fé e Missão que me ajudou a aproximar d'Ele, a conhecer o meu íntimo e a perceber que era chamada a fazer algo mais. E com milhões de medos e anseios Ele quis que eu fosse ainda mais longe e vivesse este mês, onde pude aprender e saborear um pouco da vida missionária.

Após toda a preparação, angariação de fundos e despedidas, só senti a realidade da situação quando me vi em Nampula. Assim que saí do avião, tirei a máquina para tirar fotos do local e fui logo impedida de o fazer, por um segurança do aeroporto. Aí sim, percebi que aquele não era mesmo o mundo em que cresci, a realidade a que sempre fui habituada.

No caminho percorrido até Carapira, mais certezas tinha de estar a viver uma outra vida, num mundo completamente diferente. Da estrada alcatroada, sem marcações e com retas infinitas foi-me permitido ver a verdadeira realidade de viver em Moçambique. Da janela fui vendo as barracas junto à estrada com imensas feirinhas, onde se vendia de tudo um pouco, vi também muitas mulheres a carregarem os seus filhos às costas e outras que carregavam baldes de água ou outras cargas nas suas cabeças. A terra vermelha, as típicas árvores e a planície infinita com alguns rochedos ao alto identificavam a paisagem. Em alguns locais viam-se palhotas e pequenos barracos que identificavam as povoações.

Chegamos a Carapira com uma receção calorosa que me fez lembrar da existência de um mundo parecido com o que estava habituada a viver. As instalações eram bastante agradáveis à semelhança do que tinha idealizado anteriormente.

Os primeiros dias permitiram conhecer o local onde passaríamos maior parte do tempo, as casas dos diferentes ramos da família Comboniana e o seu trabalho desenvolvido ao longo do tempo. Foram distribuídas tarefas por toda a comunidade do Fé e Missão, entre as quais relacionadas essencialmente com o trabalho do Instituto Técnico Industrial de Carapira (ITIC) e no apoio ao estudo das meninas do lar das Irmãs Combonianas.

O trabalho que nos tinha sido atribuído foi sendo feito ao longo do mês e com a adaptação do ritmo que ali se vivia. O tempo era muito relativo e a pressa não existia, havendo sempre a possibilidade de uma conversa extra sempre que caminhávamos para algum lado.

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Todos os dias participávamos nas laudes e vésperas, realizadas na igreja juntamente com a comunidade Comboniana. No início, não foi propriamente fácil acordar cedo para as laudes, mas há medida que ia entrando no ritmo, estranho seria se algum dia faltasse a uma das orações. Era um momento de paragem para estar junto Dele e por aí relembrar todas as razões que me levaram a estar ali.

Além das tarefas atribuídas inicialmente, tive a oportunidade de visitar uma comunidade fora de Carapira, com a irmã Eleonora, onde pela primeira vez me senti “inculturada” ao almoçar juntamente com a comunidade, tive também a oportunidade de rezar o terço em Macua no bairro de Carapira e de acompanhar a irmã Maria José na visita aos doentes. Todos estes momentos permitiram conhecer um pouco mais sobre os costumes e a vida do povo Macua. Eles ficavam muito contentes sempre que nos ouviam falar na sua língua, por mais pequena que fosse a expressão.

As maravilhas foram acontecendo ao longo dos dias. E em cada um deles havia um toque especial, que me fazia gostar de estar ali e onde já nada mais importava! Apesar das saudades de Portugal, a vontade de ficar ali aumentava a cada dia que passava. E aos poucos fui aprendendo mais e mais e o melhor de tudo surgiu com as meninas do lar.

Desde o primeiro dia em que as conheci fiquei logo apaixonada pelos seus sorrisos, canções e alegria contagiante. O meu coração se enchia, sempre que estava com elas! Elas cativaram-me com a sua simplicidade e apesar de ter a tarefa de lhes ensinar e ajudar com os estudos senti que aprendi muito mais. Partilhavam o pouco lanche que tinham e ainda davam um pouco do delas. Ensinavam palavras em Macua e divertiam-se sempre que eu as tentava pronunciar.

Quando já sentia o coração a rebentar com tanto amor e a pensar que já não era possível mais, eis que me surge uma pequenita a precisar de falar comigo a sós. Confesso, foram mil e um pensamentos e alguns receios, junto com muita curiosidade. O que me queria ela dizer? Surge então a oportunidade e a pergunta é tão simples, dita de uma forma tão doce: “Queres ser minha amiga?” Fiquei sem reação e sem palavras. Não contava com tão pequena pergunta que carregava tanto sentimento. Abracei-a e disse-lhe com todo o meu amor que já eramos amigas sem ter de o pedir. Mas aquele coraçãozinho ainda me quis surpreender mais. Apesar de eu ter tentado não aceitar, veio com um presente para mim. Sim, nós que temos tanto e eles que têm tão pouco. Como é possível? Um pequeno caderno com um texto escrito por ela. Ao longo do mês, as pequenas atitudes desta menina mexeram comigo de uma forma muito especial, mexendo também com o meu mundo e a minha forma de pensar sobre o amor. Afinal ele é tão simples!

Tudo isto fez-me ver a vida com muito mais simplicidade deixando de dar valor a muita coisa que tinha e refletir sobre esse amor que pouco falava e muito transmitia. Foi assim que Deus me levou ao deserto e me falou ao coração…

 

Mónica Silva 

“Na minha pequenez se detiveram Seus olhos…”

1.jpgChegou a altura de partilhar o que me vem no coração depois de um mês de experiência missionária em Carapira. Tenho alguma dificuldade em organizar as ideias e começar, pois muitas emoções me vêm ao coração… vou procurar escrever um pouco sobre como cresci nesta caminhada.

Primeiro, vou falar um pouco da nossa rotina: tínhamos, todos os dias, momentos de oração. Começávamos e terminávamos o dia em oração, com a comunidade apostólica e da nossa comunidade. Logo no início foram apontados vários trabalhos em que precisavam da nossa colaboração e fomos construindo a nossa rotina em torno desses trabalhos, no Instituto Técnico e Industrial de Carapira e no lar das irmãs; e acompanhávamos os missionários e missionárias nas visitas que faziam a pessoas e comunidades. Participámos, ainda, nas celebrações que se viveram por aqueles dias dos 70 anos da presença Comboniana em Moçambique, os 150 anos da fundação do instituto dos MCCJ e os 25 anos do assassinato do irmão Alfredo Fiorini. E tínhamos as tarefas e momentos específicos da vida em comunidade, da nossa “comunidade Fé e Missão”.

Duas coisas me enchiam o coração: a primeira era um sentimento de pequenez; a segunda era uma grande serenidade, mas uma serenidade alegre. Sentia-me pequeno e leve, alegre, em paz.

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Senti-me pequeno porque fui vendo o melhor e o pior que há em mim. Aprendi mais sobre mim – conheci-me melhor. Fui percebendo os meus limites e os meus dons com mais nitidez. Fui descobrindo limites que não conhecia e qualidades que não pensava ter. E ao crescer sentia-me pequeno. Porque fui percebendo que os trabalhos que íamos fazendo, embora importantes e feitos com toda a dedicação que podíamos dar, não mudam o mundo como queremos. Porque a diferença está em pequenos gestos de amizade, de amor, que crescem e dão fruto. Sentia-me pequeno, sobretudo, porque foi muito mais o que recebi do que aquilo que dei: da comunidade apostólica que acolheu generosamente; da comunidade de Carapira; das comunidades que visitávamos; das pessoas que nos encontravam; das crianças e jovens com quem passávamos mais tempo, no Instituto (a escola industrial) e no lar das Irmãs; e das pessoas com quem fiz comunidade, os restantes membros do Grupo Fé e Missão.

Senti-me, ao mesmo tempo, em paz, porque tinha o coração cheio. Cheio de amor, de alegria. Cheio de Deus. A cada dia que passava, percebi melhor que estava ali porque Deus me quis falar ali. E sentia-O muito próximo, em momentos concretos, na oração, nos trabalhos, nas pessoas que me iam tocando o coração. E percebi que Ele me ia guiando, me ia ajudando a conhecer-me melhor. Isto ajudou-me a ser mais sensível, mais genuíno. Mais eu. Aquele eu que Deus já conhecia e eu ainda não – o meu verdadeiro Eu…

 

Olho para este caminho. Como estava na partida e como estou na chegada. Como mudei: como Deus se deteve na minha pequenez, e como pegou nessa pequenez e foi construindo algo de bonito.

Como fui tocado por Ele. E sinto-me feliz por olhar e por saber que vivi intensamente. Por saber que vivi aquele tempo apaixonado por Cristo e pelas pessoas. E que quero continuar assim, de coração cheio, grato por todas as maravilhas que Deus fez e por tudo o que recebi das pessoas que por mim passaram, os muitos testemunhos de fé e amor que me foram tocando e me fizeram crescer.

Filipe Oliveira (Fé e Missão)

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Curso de Missiologia – um presente de Deus (parte III)

Diálogo Inter-religioso

(cont.)

Já quase no término do Curso, dia 26, tivemos connosco o Frei José Nunes que nos abordou o Diálogo Inter-religioso. Neste dia perspetivamos a evolução da comunicação entre religiões ao longo dos tempos. Vemos que hoje a Igreja face às outras religiões propõe um fecundo diálogo, baseado no apreço e respeito por elas. Vemos hoje que as religiões são “vias de salvação”, não pelos seus credos, mas porque conferem a cada ser um sentido de vida. Muito há em comum entre todas as religiões.

 

“(As tradições religiosas da humanidade) merecem a atenção e estima dos cristãos, e o seu património espiritual é um convite eficaz ao diálogo, não só acerca dos elementos convergentes, mas especialmente sobre aqueles em que diferem” (Documento Diálogo e Missão)

Grupo

 

A par destes dias de reflexão e visão da história do Cristianismo e de revisão deste Ser Missionário Cristão, estiveram momentos de partilha em grupo e de reflexão sobre os diversos temas. Momentos muito ricos de partilha de cada cultura, de crescimento pessoal e como comunidade cristã.

 

 

 

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Uma semana também ela pincelada com a beleza de Eucaristias multiculturais, onde os tons de pele se fundiam e pintavam o quadro da Festa do Senhor, onde ecoava a música em várias línguas e onde a dança preenchia o altar.

E todos estes dias inspiradores, de grande aspiração à vocação missionária, me emocionaram e me preencheram o coração por todo o caminho que a humanidade tem feito enquanto peregrina desta Obra divina que é o Mundo, o Universo. Orgulhosamente missionária com todos aqueles ali presentes, senti-me enviada com esta chama que só Deus inflama. Deus envia-nos. Citando o Padre Adelino Ascenso no seu discurso final: mais do que “ide e ensinai”, a esta igreja missionária Deus proclama:

“Ide e escutai”.

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 LMC Carolina Fiúza

Curso de Missiologia – um presente de Deus (parte II)

Momento cultural no fim do dia 22

 (cont.)

Prosseguimos no dia 23 para o tema da Espiritualidade Missionária contando com a Dra. Teresa Messias como oradora. E o que é isto de Espiritualidade? Algo que não se reduz à vivência cristã, mas sim uma dinâmica de ser. Todos a temos enquanto seres animados de desejo de autotranscedência, de nos realizarmos, de sermos felizes. Falámos concretamente desta Espiritualidade Cristã que tem que ser sempre Missionária. Uma Espiritualidade que me liberta e que tem um sentido escatológico, ou seja, que não acaba. Citando a Dra. Teresa Messias nem no céu a experiência de Deus tem fim. E percebemos a Trindade como fonte de missão, na relação Eu-Cristo-O outro.

 

Missão não é somente fazer coisas; não é sair de um lugar; é ser pessoa; é uma possibilidade de ser vida e gerar vida no outro e na humanidade; é esvaziar-se, a kenosis de que São Paulo fala. (Dra. Teresa Messias)

 

Vimos este Deus Missão, um Deus que também se esvazia quando nos dá o seu Filho, um Deus Parentalidade, que não só é Pai, mas também Mãe, e só assim é fecundo. Um Deus que não só dá, mas que também acolhe o seu Filho, também recebe. E que isto tem tradução no meu ser missionário: quem só sabe dar, não sabe amar. É necessária esta capacidade de receber.

Assim, a Espiritualidade Missionária requer o Desinstalamento – esvaziar-me, “Sendo rico, se fez pobre por vós, a fim de vos enriquecer por sua pobreza “(2Co 8, 9) –, Confiança – na providência divina que apenas se obtém na oração, na escuta, na leitura dos sinais de Deus, “aspirai às coisas do alto e o resto ser-vos-á dado por acréscimo” (Col 3,1-4) – e Inculturação – descer a cada cultura para encontrar a novidade de Cristo.

Refletimos sobre a missão cristã, as suas potencialidades e dificuldades. Identificámos a necessidade de um êxodo contínuo, da descentralização da Igreja em si mesma – a Igreja não se prega a si, não se serve a si e não se orienta em si, mas sim voltada para Cristo. A Missão não é um fim em si mesma e uma igreja autorreferencial não é uma Igreja de Cristo. Terminámos o dia refletindo sobre qual a minha missão?, na sua dimensão pessoal, irrepetível, personalizante e carismática do seguimento de Jesus. E a resposta é um caminho processual: requer oração e escuta e só nelas percebo o que Deus vai querendo, o que é que Ele me vai propondo para cada dia.

Padre Adelino Ascenso

 

No dia 24 fomos presenteados pela sabedoria e tranquilidade das palavras do Padre Adelino Ascenso com uma abordagem artística sobre a Literatura e teologia: a ficção de Shūsaku Endō. Ficaria ali a ouvir as suas palavras durante dias: palavras sábias, fruto de uma experiência inimaginável no Japão, no contacto com o povo e com o profundo silêncio do Tibete onde o único som audível era o tiritar dos seus próprios dentes, tal não era o frio sentido. Começou por nos fazer uma abordagem da literatura japonesa e das suas tradições, uma cultura do escondimento, do silêncio, da harmonia, da tripla insensibilidade face à morte, por exemplo. Perspetivamos de forma histórica a chegada do Cristianismo ao Japão e é aqui que entra Shūsaku Endō com a sua obra literária de romances, entre os quais O silêncio. Endō lutou toda a sua vida com questões relacionadas com a sua fé, nomeadamente com forma de ser simultaneamente, japonês e cristão. Essa luta está patente nas suas obras com temas que podem contribuir para a elaboração de uma nova imagem de Cristo e do cristianismo no Japão. E desta forma ao longo do dia o Padre Adelino estabeleceu uma ponte entre a realidade do Cristianismo no Japão e o romance “O silêncio” (filme que tivemos oportunidade de ver no fim do dia), falando sobre a apostasia, o silêncio de Deus nos diversos momentos da vida e esta salvação dos apóstatas (e de todos os homens, independentemente das suas crenças). Dotado de uma capacidade artística de se exprimir, o Padre Adelino terminou com algumas palavras que o meu caderno gravou:

 

A igreja não possui Cristo. A Sua presença não se confina à Igreja embora seja nela que se aprende a entender a presença d’Ele fora dela.”

“Só se pode conhecer Deus através das suas feridas” (citação que parte da obra de Tomas Halik, O meu Deus é um Deus ferido)

“O silêncio não é a ausência de palavras, mas sim um murmúrio de Deus para além do silêncio”.

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(cont.)

LMC Carolina Fiúza

 

 

Curso de Missiologia – um presente de Deus (parte I)

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Um presente de Deus que nos permitiu mais e melhor olhar para a obra de Deus com grande graça! Um presente de Deus foi para mim este Curso de Missiologia onde pude participar entre os dias 21 e 26 de Agosto em Fátima, uma iniciativa dos responsáveis do Institutos Missionários Ad Gentes (IMAG), com o apoio das Obras Missionárias Pontifícias (OMP). Nesta formação pude ver os oceanos a cruzarem-se e unirem-se num só ponto: da cadeira onde me sento para enriquecer a minha sabedoria e apaixonar-me mais por este ser de Cristo, vislumbro uma plateia de cerca de 60 participantes dos 4 continentes – Portugal, Itália, Filipinas, Colômbia, Brasil, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Angola, Moçambique, Congo, entre outros países. Uma semana em que as cores se misturaram e fundiram para aprender e partilhar este “Ser Missionário” nos dias de hoje. Comigo estavam em comunidade o Mário Breda, a Ana Raposo, a Maria José Martins e o Luís: e que rica foi também a nossa experiência quer como comunidade, quer na partilha com os restantes participantes.

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O Curso foi todo ele muito rico em termos de conteúdo. Começámos no dia 21 (segunda feira) por abordar A missão no Evangelho de São Mateus, com D. António Couto, Bispo de Lamego. E D. António Couto apresenta-nos o primeiro dos livros do Novo Testamento pelas suas ligações com o previamente escrito no Antigo Testamento. Apresenta-nos um Evangelho onde o Perdão é marca d’água: Mateus, um cobrador de impostos, abre-se a esta conversão a Jesus Cristo pelo perdão que Este concede a todo o Homem. E assim em todo o Evangelho de Mateus estão patentes 5 discursos (em analogia ao Pentateuco do Antigo Testamento): Discurso da Montanha, Missionário, das Parábolas, Eclesial e Escatológico. E destaco o discurso Missionário (Mt 10, 6-10): “de graça recebestes, de graça dai” (Mt 10, 8). Graça – a figura maternal biblíca, o olhar (materno) que podemos ter sobre cada um. D. António apelou a que, como missionários, devemos ter esta “pausa e bemol na música da nossa vida para que saibamos deixar o Espirito Santo falar” e realçou a importância de sermos missionários “sempre abertos à surpresa e com a sensibilidade apurada”.

 

Os cristãos têm uma missão vital: "Sim! Somos chamados a servir a humanidade do nosso tempo, confiando unicamente em Jesus, deixando-nos iluminar pela sua Palavra: «Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça». Quanto tempo perdido, quanto trabalho adiado, por inadvertência deste ponto! Tudo se define a partir de Cristo, quanto à origem e à eficácia da missão: a missão recebemo-la sempre de Cristo(…). (in homilia do Papa Bento XVI, Porto, 14 de Maio 2010)

E pela história do Cristianismo ao longo dos séculos viajámos no dia 22; uma viagem com o Dr. José Eduardo Franco como guia – O Cristianismo e Globalização: Estado, Igreja e Missionação na época moderna e contemporânea. E pudemos perceber que a história não é passado, mas sim presente.  É ela que faz cada presente. E nesta viagem percebemos o papel do povo Português através das suas descobertas por mares nunca dantes navegados para a Missionação e Evangelização da Igreja Cristã; e mais: que esta missionação foi, ao longo dos tempos, construtora da globalização que atualmente atinge o seu auge. Nesta viagem visitámos a imagem de Deus e da Igreja desde o século I – um Deus territorial de Isaac e de Jacob, o homem age apenas mediante a vontade de Deus –, passando pela disseminação do Cristianismo pelos discípulos e por missionários que acompanhavam as viagens da época dos Descobrimentos e chegando, por fim, aos dias de hoje. E atualmente percebe-se que o Evangelho pede uma Missionação inculturada: um fazer-se grego com os gregos, romano com os romanos (São Paulo), aproveitando o Cristianismo aquilo que cada cultura tem de excelência. O Evangelho deve levar à humanização e, desta forma, o Missionário é o construtor de uma humanidade nova, que chega a todos pela via, não da imposição mas, da credibilidade.

(cont.)

 

LMC Carolina Fiúza

Um Inesperado plano de Deus para mudar e melhorar os meus planos!

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O meu nome é Filipe Oliveira, sou estudante universitário e tenho 19 anos e, ao fazer a caminhada com o grupo "Fé e Missão" do Movimento J IM -Jovens em Missão. Decidi abraçar uma das propostas desse caminho que era a de uma experiência missionária de um mês, na missão comboniana de Carapira, no Norte de Moçambique.

Quando penso nesse mês ... não sei o que acontecerá! Esta antecipação do concretizar de um desejo que me arde no coração enche-me de uma série de emoções! Posso dizer, resumindo o que me vem cá dentro, que estou muito entusiasmado e ansioso! Será, sem dúvida, uma oportunidade fantástica para me poder doar inteiramente; e crescer, recebendo tudo aquilo com que irei sendo tocado, como dizia o poeta: "Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós." (Saint-Exupéry)

Não posso dizer, contudo, que tenho expetativas (nem boas, nem más). Não as tenho - e ainda bem, porque as coisas só fazem sentido se surgirem como uma surpresa - por isso, vou deixar-me surpreender.

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E isto de me deixar surpreender leva-me a falar dos motivos que me levam a partir. Eu gosto de fazer planos: mas raramente os cumpro, ou raramente os concretizo. Muitas vezes o que se planeia é fantástico, é bom, mas não é o plano certo. E, embora tivesse um grande desejo de viver uma experiência destas; e, assim que esta oportunidade me apareceu eu a tenha aceitado sem hesitar muito; talvez não seja aquilo que eu, quando pensava viver algo assim, tivesse pensado. E é esse o motivo que me leva a Carapira: porque eu sei que alguém pensou nisto antes de mim e quis dar a volta aos meus planos. Esse alguém é Deus. Acredito e sinto que é Ele que me "empurra" a Carapira.

A vida de um cristão é um caminho. Esse caminho, não o desenho sozinho: Deus desenha-o comigo. E houve partes do caminho que eu trilhei; e outras que foi Deus quem trilhou. E, não sei mesmo, mas olhando para esses pedaços do caminho ... a sua travessia é desconcertante! Mas, quando chegamos ao fim desse trilho, olhamos para trás e vemos que crescemos tanto ... que somos tão diferentes no fim..., mas, porque mais configurados com Deus, estamos muito melhores, felizes!

Carapira é uma parte do meu caminho que Deus me propõe; uma parte do caminho sobre a qual não tenho expetativas, porque não a planeei ao pormenor, mas que apenas sei uma coisa -que algo de muito maravilhoso terá esse trilho, porque não será atravessado sozinho.

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Preparo-me para partir com um coração vazio: pronto para receber aquilo que Deus, através das pessoas que comigo vão e com as que já lá estão e com quem farei comunidade quiser nele colocar. Assim, parto para fazer um caminho onde espero encher o coração. Um inesperado plano de Deus para mudar e melhorar os meus planos ...

 

Filipe Oliveira

Comunidade PI em Arganil

Olá Amigos e Irmãos,

         Como sabem, estamos a fazer a experiência de Comunidade PI (partida imediata). O que é isso? Para os mais distraídos, quer dizer que estamos a viver em comunidade cujo objectivo é a aprendermos isso mesmo, a viver em comunidade. Esta preparação torna-se importante para quem vai partir.
         Iniciamos a nossa comunidade na última semana de Agosto com o curso de Missiologia. Entretanto, estivemos em Arganil, onde, durante duas semanas, para além da vivência em comunidade, estivemos na Santa Casa da Misericórdia.
         O nosso dia começava sempre com a oração comunitária, as laudes. Era um momento de comunhão com Cristo, “alimento” para o dia.
         A seguir a um bom pequeno-almoço, perfumado pelo cheirinho a café, seguíamos para a Santa Casa da Misericórdia, onde os nossos amiguinhos, os idosos, já nos esperavam. Aí permanecíamos até ao fim do dia. Como nos sabia bem!!!
         Regressando a casa, havia muito que fazer, entre as compras e o preparar o jantar, além da avaliação diária, tínhamos também, a oração das vésperas, um momento de agradecimento e louvor pelo dia com que Deus nos presenteava.

                    No dia em que nos apresentámos na Santa Casa de Misericórdia de Arganil, tivemos uma pequena reunião com o Director geral e outros membros da Instituição, onde nos colocámos ao dispor, para o que fosse necessário dentro das nossas possibilidades. De acordo, com a nossa formação fomos enquadradas na dinâmica da Instituição. Tendo sido, no entanto, apresentado como objectivo principal o estar com os utentes.

                    Em todo o trabalho realizado, fomos respondendo às necessidades que se iam fazendo presentes. Desde o levar utentes à casa de banho, dar-lhes de comer à boca, ajudar na distribuição da alimentação, limpeza e manutenção do refeitório pequeno e copa ao simplesmente estar, que passava por dar um beijo, sentar ao lado, ouvir as alegrias e tristezas, apertar a mão, levar a um passeio até ao exterior, entre tantos outros pequenos milagres da vida, sentimos que o outro era presença de Deus na nossa vida e que nós também o conseguíamos ser. Uma dádiva de Deus pela qual damos Graças ao Pai.

                    Como aprendemos na Formação, sempre que chegamos a um lugar, temos de procurar integrar-nos na vida da comunidade local, assim sendo, e para não desiludir a Equipa coordenadora, foi o que fizemos e, com muito esforço. Tivemos que ir a piscina, à feira semanal, à FicaBeira, onde só por acaso, tivemos direito a música e, provámos uns licores, de se tirar o chapéu.

                    Esta última parte é só para incentivar a Comunidade PI, do próximo ano.

Despedimo-nos com um beijinho.
Fiquem na Paz de Cristo.

 

Élia e Márcia

Comunidade PI