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Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

Fim de semana de animação Missionária na Paróquia de Vergada

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No fim semana de 20 a 22 de Abril realizou-se mais uma animação missionária, desta vez na paróquia da Vergada à qual pertence a Sofia Coelho que está a fazer formação connosco.

Sofia Coelho, formandaLMC Márcia Costa

Um fim semana de uma alegria enorme, onde fomos muito bem acolhidos pela comunidade e pelo pároco, o Pe. António Machado.

Pe Francisco de Medeiros, Missionário CombonianoDesde sexta feita que iniciámos as nossas atividades com o grupo de jovens e acólitos, passando pelas catequeses no sábado e as eucaristias de sábado e domingo na qual também tivemos a presença do Pe. Francisco de Medeiros, Missionário Comboniano assistente do nosso Movimento.

 

Os fins semana de animação missionária são sempre momentos muito enriquecedores, entramos na vida da comunidade paroquial onde falamos da nossa experiência e tentamos trazer até eles um pouco da missão, o que vivemos e sentimos pelos locais onde estivemos! São momentos de partilha que nos enriquecem de uma forma incrível e nos fazem sentir que o amor de Cristo, o Bom Pastor, vive em nós e nos que nos rodeiam sempre (mesmo quando achamos que não)! Podemos perceber como esta paróquia é missionária e aberta aos outros, aos que mais precisam, não é uma paróquia fechada! E isso é uma graça tão grande!!! Estes momentos fazem-me recordar que também estou em missão em Portugal e que apesar de uma forma diferente é tão valida e importante como uma missão além-fronteiras. Este fim-de-semana também se celebrou o dia das vocações, e como me sinto feliz de partilhar a minha vocação de Leiga Missionária Comboniana com os que encontro!

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Tenho que partilhar de como fomos mimados!!! A D. Rosa, a Sofia e o Pároco não deixaram faltar nada, ficámos muito bem instalados e as refeições foram uma maravilha! Não posso esquecer os Malucos por Jesus (grupo de Jovens) e os catequistas que nos deram sempre apoio no que precisámos! Obrigada de coração!

Sandra Fagundes

Leiga missionária Comboniana

Natal em Moçambique

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Nas vésperas de Natal quase que só me apercebia da sua proximidade cada vez que ia rezar e ‘dava por mim’ a folhear a Liturgia nas páginas do Advento.

Sei que, muito provavelmente, se não estivesse aqui, tudo em meu redor evocaria o Natal. A proliferação de natais comerciais trataria de me enquadrar nesta estação a partir do terceiro trimestre do ano, praticamente, num jogo astuto e paulatino.

Entre os jogos de luzes, as decorações interiores e exteriores, sugestões tanto para os Menus cada vez mais requintados como para o dress code da noite de Consoada e do almoço de Natal, a magia que se sente nas ruas das cidades, as típicas músicas da quadra (‘mais do mesmo’ mas, até os clássicos deixam saudade), … Entre um ou outro jantar entre amigos e grupos disto e daquilo, nada deixaria escapar a atenção, nem mesmo dos mais distraídos, para ‘O que está para chegar’.

Aqui, não há nada – disso. Nas cidades testemunham-se alguns sinais de ‘natais importados’. Mas aqui, não. Os sentidos não são invadidos por esta avalanche de estímulos. Não há o frio e os vidros embaciados que deixam ver as luzes a piscar. Não se ouvem as músicas corriqueiras. Não se sente, nem se adere, à bulimia das compras nem dos presentes – e, muito menos, das aquisições e das ‘necessidades’ de última hora. Não se assiste ao ‘sozinho em casa’ na televisão. O calor é demasiado para se substituírem os chinelos, as saias ou calções e as t-shirts por roupa mais quente. Não se publicita o bacalhau nem o azeite virgem extra. Não há o bolo- rei, as rabanadas, filhoses ou bolinhos disto e daquilo. Não se impingem brinquedos nem se embrulham promessas de pequenos paraísos instantâneos e de curta duração.

Confesso que, na semana que antecedeu o Natal, eu me senti um pouco apreensiva: por ser o meu primeiro Natal na Missão, por sentir saudades da família, particularmente, nesta quadra, por ser tudo tão único e diferente do que estava habituada, … e até por não termos tido energia nem água nesses dias, dificultando a comunicação e desafiando a criatividade…

Mas, este ano, o Menino Jesus trouxe-me esta aprendizagem: o Natal não é ornamento.

Ao nosso redor pode parecer Natal, mas nunca o será se ele não estiver já dentro de cada um de nós. O Natal é, também, movimento, uma itinerância. Temos sempre de caminhar para o encontrar. Se queremos ver uma ‘grande luz’ temos de nos levantar e partir; temos de ir ao encontro das manjedouras onde se encontra o sofrimento humano; temos de voltar ao estaleiro onde nos deparamos com a simplicidade; temos de regressar ao presépio onde a esperança de Deus e a esperança da humanidade se encontram - mas, com a confiança de que, entre o silêncio e a palavra que procuramos, uma estrela nos guiará, sempre.

O Natal, acredito, acorda-nos para voltarmos às nossas verdadeiras raízes, para o primeiro sonho de Deus para cada um de nós. A infância de Jesus é, também, a nossa infância. É por isso que, depois de uma espera demorada encontramos paz quando, finalmente, repousamos em Deus.

 

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Curiosidade…

Depois da independência Moçambique tornou-se um estado laico. No entanto, o feriado do dia 25 de Dezembro foi preservado, não por ser dia de Natal mas como o Dia da Família. Assim, neste dia, independentemente da religião que professem, as famílias encontram-se e celebram o dom da Família (claro que, para a comunidade cristã, este dia é ‘mais do que isso’, é o dia do nascimento de Jesus, em que a Salvação e a verdadeira Paz descem à Terra). Assim, desejavelmente, reúnem-se para confraternizarem e recuperarem forças para o ano que está por vir – mas, afinal, não é, também, isto o Natal?! No Natal, cada vez que celebramos a esperança conseguimos dizer no nosso coração “a Humanidade tem futuro”.

 

 

 

Deixo parte de um poema de José Tolentino Mendonça (“O Presépio somos nós”) que me acompanhou nas últimas semanas:

 

O Presépio somos nós

É dentro de nós que Jesus nasce

Dentro de cada idade e estação

Dentro de cada encontro e de cada perda

Dentro do que cresce e do que se derruba

Dentro da pedra e do voo

Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo

Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece

 

 

Esperando que tenham tido um Bom Natal,

Votos de um Feliz Ano Novo,

Marisa Almeida.

Estar aqui. Com eles e entre eles!

22790782_10215031450241977_2067650889_o.jpgEstamos num dos lugares mais bonitos do mundo. Apenas deveremos acrescentar que neste lugar, algures, perdido entre os vulcões Chachani e Misti, vive um povo, um povo humilde no qual fazemos morada agora.

Ao longo da nossa ainda precoce caminhada, são já muitos os rostos que ficaram cravados em nós. Talvez porque a desumanidade se faz presente de uma forma tão evidente que em última das hipóteses leva à morte. São já muitas as histórias de violência que nos foram contadas não apenas através de palavras, mas através do testemunho vivo de quem diariamente luta pela esperança da mudança. Ou não seja este país, Peru, o país onde os níveis de machismo são dos mais elevados de mundo. Neste testemunho de Manu Tessinari, podemos conhecer de uma forma mais profunda esta realidade:

 

“Peru é um país machista. Muito machista.

No Peru, uma adolescente pode ser espancada pelo pai se flagrada tendo sexo com o namorado. Aqui, a mulher que está em cárcere não tem direito a visitas conjugais. No sistema público de saúde, é proibido a entrega gratuita da pílula do dia seguinte para pacientes vítimas de estupro.

22641683_1205471326251727_267057887_o.jpgAlgo mais absurdo? No Peru, se a mulher é largada pelo marido e não se divorciam, o homem pode refazer a vida e registrar todos os filhos da nova companheira. A mulher não. A lei indica que o filho desta mulher é legalmente do ex-marido (protegido pelo vinculo do matrimonio) e para que o pai biológico consiga registá-lo, é necessário um longo e complexo processo legal.

De 10 mulheres peruanas, 6 são vítimas de violência psicológica e 2 são vítimas de violência física por parte de seu companheiro. 16% das pessoas (homens e mulheres) acham que a culpa é da própria mulher, sendo que 3,7% acham que elas MERECEM ser golpeadas e 3,8% NÃO vêem problemas em o homem forçar relações com suas parceiras.

As peruanas são trabalhadoras. Segundo o INEI (Instituto Nacional de Estatísticas e Informação), 95,4% das peruanas trabalham, a maioria em serviços. Em média, uma peruana ganha UM TERÇO A MENOS do que um peruano ganho, fazendo o mesmo serviço. Infelizmente, somente 36% das mulheres conseguem terminar a escola e pouco mais de 16% conseguem concluir uma faculdade. Isto num país onde as mulheres são 15.800.000, ou seja, 49,9% da população”.

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As vidas de quem nos passa pela porta, não nos ficam indiferentes, e ainda que a realidade seja esta, levamos-lhe a alegria de um Evangelho que não é apenas nosso, um Evangelho que necessita ardentemente de ser levado ao mundo, levado aos confins da periferia.

 

Não tenhais medo de sair e ir ao encontro destas pessoas, de tais situações. Não vos deixeis bloquear por preconceitos, por hábitos, por inflexibilidades mentais ou pastorais, pelo famoso «sempre fizemos assim!». Mas só podemos ir às periferias, se tivermos a Palavra de Deus no nosso coração e se caminharmos com a Igreja, como fez são Francisco. Caso contrário, estamos a anunciar a nós mesmos, e não a Palavra de Deus, e isto não é bom, não beneficia ninguém! Não somos nós que salvamos o mundo: é precisamente o Senhor que o salva!

- Papa Francisco -

 

É aqui que nos sentimos chamadas a habitar entre eles e com eles. É aqui que deixamos de ser nós para ser, instrumentos vivos ao serviço de Jesus Cristo no Peru.

 

 

Comunidade Ayllu,

Neuza y Paula

Testemunho - Fé e Missão em Carapira por Inês Gonçalinho

Inês 1.pngBem, como começar este testemunho? Palavras não chegaram para descrever o turbilhão de emoções que senti, e a nostalgia que já acumulo no meu coração. Demorei dias ou até semanas para conseguir escrever o testemunho, talvez por medo ou mesmo por saudade. Cada dia que passo longe daquela terra sinto dor, mas acima de tudo saudade. É algo que se apodera de mim sem me pedir licença, que determina o meu estado de espírito, chegando mesmo a ditar os sonhos que tenho quando me deito. Não consigo descrever o que vivenciei, o que partilhei, o que amei, o que cresci, o que dei, mas acima de tudo o que recebi. Amei e amo aquela gente como se fosse minha. Sinceramente, como não amar? Fui adotada e acarinhada por todos o que se cruzaram no meu caminho, mesmo não falando a mesma língua não foi nenhum impedimento para trocas de amor constantes. Numa das idas ao bairro perto da casa da missão, cruzei-me com uma mamã que de imediato convidou-me para “mata-bichar” com eles. Quando dei por mim, estava rodeada de gente que me olhava atentamente, mas com um carinho infinito para me ensinar os seus costumes. Derretia-me o coração o hospitalidade e o amor que sentia diariamente, e a forma como nos olhávamo e abraçávamo era apaixonante. Estava em casa.

 

Sento-me e penso como me senti quando calcei aquela terra pela primeira vez, e é impossível conter as lágrimas. A excitação de começar, de conhecer, de estar, de ajudar, era tanta que logo na segunda-feira (dois dias após a nossa chegada), apresentei-me ao serviço no ITIC. Na noite anterior mal dormi com medo. Dei por mim a pensar se teria capacidade para tratar dos meninos que aparecessem na Enfermaria a pedir a minha ajuda, se tudo o que aprendi na faculdade realmente serviria para alguma coisa, se teria capacidade para me adaptar aos meios que tinha. Havia muitos “se's”, muitas inseguranças, mas de uma coisa tinha a certeza, daria o meu melhor desde que acordasse até que me deitasse.

Organizei papeladas, reorganizei as vitrines dos medicamentos, mas acima de tudo tratei dos alunos nas suas mais variadas formas. Entreguei-me sem medos, ficava horas depois do suposto naquele cubículo de 4 paredes, mas que me enchia tanto o coração. Ficava maravilhada quando os alunos me procuravam apenas só para me “sadar” para “ alegrar o meu dia”, como eles diziam.

A forma como me liguei aqueles meninos foi indiscritível, parecia que com um simples olhar tínhamos feito um juramento que cuidaríamo-nos mutuamente. Vivia intensamente as doenças ou as preocupações de cada um deles, e tratava de cada um como se fosse único, com todo o amor que carregava no meu peito. Muitas vezes, quando alguns deles estavam doentes e ficavam a dormir na enfermaria, custava-me tanto voltar para casa. Não conseguia pensar em mais nada, se não em arranjar estratégias para que melhorassem mais rapidamente. Então, muitas das vezes, passa va as tardes ao lado deles, a jogar jogos no chão frio da Enfermaria, a fazer controle de febre de 30/30 minutos, ou simplesmente a vê-los dormir.

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Havia dias mais fáceis que outros, mas todos eles eram um desafio constante. Todos os dias Ele ajudava-me a superar-me, e a perceber que as nossas barreiras estão apenas na nossa cabeça. Ajoelhei-me perante Deus várias vezes desorientada, e Ele falou-me ao coração mostrando-me que de mãos dadas ultrapassava todas as dificuldades.

Uma das milhares situações que vivi, foi quando olhei pela primeira vez para o rosto daquelas meninas das quais estava a acompanhar o estudo. Cada olhar penetrava no meu coração de uma forma tão intensa que jamais esquecerei. Tentavam aprender sozinhas, sem livros de apoio ou explicadores. Eram movidas por uma força interior indiscritível de querer ser mais, de alcançar um futuro melhor. Cada uma, carregava nos seus olhos histórias e vivenças que jamais esquecerão, mas sempre com uma alegria e um amor contagiante.

Inês 3.pngTive a oportunidade de ajudar no posto médico da comunidade, e aí percebi que pertenço a este povo. Andei demasiado tempo a evitar o confronto com o estado de saúde da comunidade Macua e o sofrimento que iria sentir. Mas pelo contrário, arregacei as mangas e fui. Simplesmente fui. Corri todas as especialidades, desde os doentes com HIV, mamãs internadas com patologias ainda por descobrir, maternidade, consultas de pediatria, chegando mesmo há tuberculose. Sabia que estava a colocar a minha saúde em risco, mas de uma coisa tinha a certeza, Ele estava a olhar por mim, e por isso, não iria fazer disso um impedimento para não ajudar aquelas pessoas.

Filas intermináveis, preenchiam o átrio do posto, os gritos de crianças entoavam em todos as divisões, e a esperança que chegasse a sua vez era comum a todos. Por vezes, a língua era uma barreira para explicar a toma da medicação e as precauções que teriam que ter, mas fazia um esforço para que a mensagem chegasse. Agradeço-Lhe por me ter dado forças todos os dias para conseguir ajudar aqueles que procuravam, e que a impotência não se apoderasse de mim.

A cada dia que passava, laços eram fortalecidos e o meu medo de regressar a casa era constante. Sabia que o meu lugar era ali, pertencia-lhes. Foram a família que Deus escolheu durante a minha missão. E a cada dia que passava os amava mais, por isso, era impossível despedir-me sem juramentar o meu regresso. Agradeço-lhes de coração, a forma como me receberam de abraços abertos e todo o amor que me deram.

O mais engraçado desta missão não foi só as pessoas que conheci, os sorrisos que vi, ou as lágrimas que deitei, mas sim a forma como Deus invadiu o meu coração diariamente sem me aperceber. A necessidade de conversar com Ele diariamente, estava intrínseca na minha rotina diária, e a forma bela como ele me respondia era indescritível. Tenho a certeza que sem Ele, não iria conseguir suportar as minhas fraquezas nem contornar as minhas inquietações. Como foi bonita esta descoberta com o Senhor!

Obrigada Carapira, simplesmente obrigada!

Inês Gonçalinho, Fé e Missão

“Na minha pequenez se detiveram Seus olhos…”

1.jpgChegou a altura de partilhar o que me vem no coração depois de um mês de experiência missionária em Carapira. Tenho alguma dificuldade em organizar as ideias e começar, pois muitas emoções me vêm ao coração… vou procurar escrever um pouco sobre como cresci nesta caminhada.

Primeiro, vou falar um pouco da nossa rotina: tínhamos, todos os dias, momentos de oração. Começávamos e terminávamos o dia em oração, com a comunidade apostólica e da nossa comunidade. Logo no início foram apontados vários trabalhos em que precisavam da nossa colaboração e fomos construindo a nossa rotina em torno desses trabalhos, no Instituto Técnico e Industrial de Carapira e no lar das irmãs; e acompanhávamos os missionários e missionárias nas visitas que faziam a pessoas e comunidades. Participámos, ainda, nas celebrações que se viveram por aqueles dias dos 70 anos da presença Comboniana em Moçambique, os 150 anos da fundação do instituto dos MCCJ e os 25 anos do assassinato do irmão Alfredo Fiorini. E tínhamos as tarefas e momentos específicos da vida em comunidade, da nossa “comunidade Fé e Missão”.

Duas coisas me enchiam o coração: a primeira era um sentimento de pequenez; a segunda era uma grande serenidade, mas uma serenidade alegre. Sentia-me pequeno e leve, alegre, em paz.

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Senti-me pequeno porque fui vendo o melhor e o pior que há em mim. Aprendi mais sobre mim – conheci-me melhor. Fui percebendo os meus limites e os meus dons com mais nitidez. Fui descobrindo limites que não conhecia e qualidades que não pensava ter. E ao crescer sentia-me pequeno. Porque fui percebendo que os trabalhos que íamos fazendo, embora importantes e feitos com toda a dedicação que podíamos dar, não mudam o mundo como queremos. Porque a diferença está em pequenos gestos de amizade, de amor, que crescem e dão fruto. Sentia-me pequeno, sobretudo, porque foi muito mais o que recebi do que aquilo que dei: da comunidade apostólica que acolheu generosamente; da comunidade de Carapira; das comunidades que visitávamos; das pessoas que nos encontravam; das crianças e jovens com quem passávamos mais tempo, no Instituto (a escola industrial) e no lar das Irmãs; e das pessoas com quem fiz comunidade, os restantes membros do Grupo Fé e Missão.

Senti-me, ao mesmo tempo, em paz, porque tinha o coração cheio. Cheio de amor, de alegria. Cheio de Deus. A cada dia que passava, percebi melhor que estava ali porque Deus me quis falar ali. E sentia-O muito próximo, em momentos concretos, na oração, nos trabalhos, nas pessoas que me iam tocando o coração. E percebi que Ele me ia guiando, me ia ajudando a conhecer-me melhor. Isto ajudou-me a ser mais sensível, mais genuíno. Mais eu. Aquele eu que Deus já conhecia e eu ainda não – o meu verdadeiro Eu…

 

Olho para este caminho. Como estava na partida e como estou na chegada. Como mudei: como Deus se deteve na minha pequenez, e como pegou nessa pequenez e foi construindo algo de bonito.

Como fui tocado por Ele. E sinto-me feliz por olhar e por saber que vivi intensamente. Por saber que vivi aquele tempo apaixonado por Cristo e pelas pessoas. E que quero continuar assim, de coração cheio, grato por todas as maravilhas que Deus fez e por tudo o que recebi das pessoas que por mim passaram, os muitos testemunhos de fé e amor que me foram tocando e me fizeram crescer.

Filipe Oliveira (Fé e Missão)

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Oração pelo Brasil

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O grito dos(as) excluídos(as), é um movimento que sai às ruas no dia 7 de setembro, dia que se comemora a independência do Brasil. Este grito é uma manifestação do povo que procura mostrar que o governo não representa a vontade popular, mas pelo contrário, defende os interesses das elites. Na impossibilidade de realizar esta manifestação simbólica e não podendo ficar indiferentes a esta causa, realizámos na paróquia Santa Luzia, uma vigília de oração pelo Brasil na noite do dia 6.

 

Foi um momento muito bonito e carregado de simbolismo, no qual unimos os nossos corações a Cristo e lembrámos o sofrimento dos que são perseguidos e de todos os que vêem os seus direitos negados. Pedimos por um país mais justo e uma vida mais digna.

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Neste momento de encontro com a comunidade e com Deus senti o meu coração em louvor, dando graças por este povo:

... que se une em oração;

... que não baixa os braços perante as adversidades;

... que não só aponta o dedo, mas também se manifesta perante governantes corruptos;

... que não perde a esperança;

... que me ensina todos os dias que parar é morrer, que sofrer é viver e que o amor é sempre possível.

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LMC Liliana Ferreira

 

 

Notícias da Liliana e do Flávio - missão de Piquiá

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Fui visitar uma mina a céu aberto, a maior mina do mundo de extração de ferro situada na serra de Carajás. Quando cheguei fiquei impressionada com a sua grandeza, coloquei um olhar técnico sobre aquela exploração e pensei: em tempos daria tudo para trabalhar num local como este... Depois olhei a realidade daquele espaço e senti uma dor muito grande, lembrei-me de todos aqueles que são afetados pelos impactos por ela provocados ao longo de centenas de quilómetros. Não foi por acaso que viajámos uma noite inteira para visitar esta mina: é que entre a Serra de Carajás e o Porto de São Luís está o Piquiá.

 

 

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E no Piquiá, missão onde nos encontramos, sentimos bem de perto os impactos sócio-ambientais por ela causados. O material extraído nesse local é transportado de comboio para o Piquiá para ser trabalhado nas várias siderúrgicas aqui instaladas e depois encaminhado novamente de comboio para o porto de São Luís de onde sai para diferentes destinos do mundo.

Piquiá é um bairro da periferia de Açailândia, MA, e divide-se em Piquiá de Cima, onde nós vivemos, e Piquiá de Baixo, onde as siderúrgicas estão instaladas nos quintais das casas.

Os habitantes de Piquiá de Baixo sofrem diariamente com a poluição proveniente destas indústrias. Com a chegada do Verão a poluição está a aumentar e todos os dias é possível ver nuvens negras a sair das chaminés sem qualquer tipo de controlo de emissões e sem qualquer tipo de fiscalização por parte do governo. É impressionante a quantidade de pó de ferro que anda no ar, e o incômodo que provoca no nosso bem estar e saúde. Nas visitas que fiz às famílias de Piquiá de Baixo, não pude ficar indiferente às histórias de vida e sofrimento vividas por esta comunidade devido à poluição e ao impacto ambiental destrutivo provocado neste que era um pequeno paraíso.

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Ao longo dos anos as lutas têm sido muitas, a população juntou-se para lutar pelo que é seu de direito, um ambiente saudável e limpo para viver e, pouco a pouco, tem feito as suas conquistas nesta luta contra gigantes por uma moradia digna. Neste momento já tem um terreno e um projeto para a construção de um novo bairro, o Piquiá da Conquista, distante do foco da poluição. Agora o maior entrave é a burocracia, mas a esperança continua viva...

Piquiá de Baixo, reassentamento já!

 

LMC Liliana Ferreira

(Re)Viver um sonho

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Pelo sonho é que vamos”, escreveu Sebastião da Gama. O sonho comanda muitas vezes a alma de uma pessoa. Consegue levar-nos a sítios que tanto desejamos e que nem sempre conseguimos alcançar de verdade. Carapira, desde 2015, que era um sonho para mim. Regressar a um sítio onde fui tão feliz, rever rostos conhecidos, pessoas que me tocaram profundamente era algo que não imaginava acontecer. Mas, com a graça de Deus, o sonho realizou-se e a alegria de viver a missão que Deus me confiou em terras moçambicanas encheu de novo o meu coração de profunda gratidão a Deus e a todos os que rezaram e trabalharam para que o sonho se tornasse realidade e pudesse ser vivido de novo.

Diferentemente de 2015, em que fui pela primeira vez a Moçambique, este ano a tarefa que Deus me confiou foi a de ser responsável por sete jovens do Grupo Fé e Missão: Ana, Filipe, Inês, Jorge, Mónica, Ruben e Sofia. A minha missão principal foi a de garantir que estes jovens teriam um mês repleto de vivências ricas e profundas com Deus, com o povo que Deus nos deu a conhecer, com eles próprios e com todos os missionários que com o seu exemplo nos viriam a ensinar a Missão. Este ano, a minha maior alegria foi sentir o coração cheio destes jovens, vê-los felizes por se entregarem sem reservas a todas as pessoas que se cruzaram connosco e a todos os trabalhos que nos foram solicitados. Sinto-me grato, uma vez mais, a Deus, pelos jovens que Ele enviou a Carapira, pela sua generosidade e bondade, pela sua alegria e entusiasmo, por tudo o que aprendi com eles e pelo tanto que deram em tão pouco tempo.

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Apesar de só chegarmos a Carapira no dia 19 de Agosto, considero que a longa viagem que fizemos foi muito importante, porque nos permitiu criar ainda mais empatia entre todos e reflectir um pouco sobre a missão. Assim, ao longo da viagem tivemos algumas catequeses sobre o voluntariado e missão, a terra sagrada que seria para nós Moçambique, o outro como “sagrado” e “mistério” e a alegria do encontro.

Muito temos a agradecer a todos os missionários que de coração aberto nos receberam e acolheram em suas casas, que abdicaram do tempo precioso em missão e pararam para estar connosco, para partilharem histórias de vida maravilhosas e para nos levarem a conhecer sítios maravilhosos. Para mim, os lugares mais lindos foram o bairro de Carapira, as comunidades que visitámos e todos os outros lugares onde tivemos oportunidade de estar com pessoas. Sem dúvida que o mais bonito da missão são as pessoas. É por causa das pessoas que Deus nos convida a partir. A missão são rostos: em primeiro lugar, o rosto de Cristo, sedento de amor por todos e, em especial, pelos mais abandonados; depois, o rosto de todas as pessoas com quem nos cruzamos e partilhamos aquilo que somos. Por vezes partilhámos apenas a nossa presença, o estar, como o fizemos com as visitas aos doentes. A verdade é que essa partilha tão simples levou alguns a dizerem aos jovens que estes foram uma bênção de Deus para eles, os doentes. E os jovens deixaram-se tocar tanto. Eu tive a graça de ir acompanhando os que pretendiam ter alguma conversa sobre o que lhes ia na alma, sobre o caminho interior que iam fazendo e digo-vos que muitas vezes fiquei de coração cheio com as partilhas, com as maravilhas que Deus ia operando no coração de cada um. Só um Deus amor é capaz de realizar as maravilhas que o nosso Deus realizou nestes jovens do Fé e Missão.

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No fim, despedi-me de Carapira. A despedida foi serena pois no meu coração senti a alegria de que não disse “Adeus” mas sim “Até já”. Pode até ter sido um “Adeus” a Carapira mas, no meu coração, foi um “Até já” à missão além fronteiras. Queira Deus que assim seja!

Termino com um pequeno Magnificat pessoal que escrevi desde Carapira até ao aeroporto de Nampula:

 

A minha alma glorifica ao Senhor,

Louvo e bendigo a Deus por todas as maravilhas que voltei a viver em Moçambique.

O pouco que sou e dei, o Senhor multiplicou em graças e dons

Transformados em simples gestos de entrega e partilha.

Louvado seja Deus!

A mim e a todo o grupo do Fé e Missão, o Senhor encheu o nosso coração de maravilhas,

Traduzidas num simples “Ehali”, num sorriso ou num simples olhar.

Louvado seja Deus!

Ao contemplar a beleza natural deste lindo jardim que é Moçambique,

Glorifico a Deus por todas as obras da Sua Criação,

Por tanto amor!

Perante os inúmeros sinais da presença de Deus, que vivemos e contemplámos

Só posso dizer: Deus é Grande!

E a sua grandeza manifesta-se em tudo e todos,

Incluindo em mim e na minha fragilidade!

Louvado seja Deus!

 

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 Pedro Nascimento

A missão do outro lado do atlântico

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Ter fé é assinar uma folha em branco e deixar que Deus nela escreva o que quiser (Santo Agostinho). 

Assim também a missão é deixarmo-nos guiar pelo espírito santo que nos acompanha e espera. 

Chegamos a este caminho com tudo o que somos e assim também partimos. Trouxemos no coração todos os que amamos e nos completam, fizeram-nos chegar até aqui e acompanhar-nos-ão a vida toda, assim dita o amor. Saímos ao amanhecer e também num amanhecer chegámos ao Peru. Conscientes da longevidade da viagem fortalecemo-nos nos abraços que apertados se deram neste longo até jáChegámos à terra à qual chamaremos casa nos anos que se aproximam. 

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À porta do aeroporto já nos esperavam, nos sorrisos e na alegria de finalmente nos receberem. Partilhámos o nosso nome e o nosso carisma. 

Á saída, fomos recebidas pela chuva miudinha que se fazia sentir, e neste turbilhão de sensações percorremos pela primeira vez solo peruano. O período é de puro conhecimento, despojadas de nós damos os primeiros passos junto deste povo que nos acolheu de forma tão amável. Somos nós do outro lado do atlântico vivendo a missão bem ao estilo S. Daniel Comboni. 

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Conhecer os Leigos Missionários Combonianos foi conhecer a nossa família LMC Peruana. Cada um deles partilhou connosco um pouco de si e do seu testemunho de vida e de fé. Pudémos conhecer também os postulantes com quem convivemos e partilhámos bons momentos. Entre conversas, bebidas, comidas e gargalhadas recebemos um pouco deles e demos um pouco de nós, alegres, na certeza de saber que todas estas vidas convergem para Deus. 

Certas de que foi e é Deus quem nos chama a esta missão. Caminhamos juntas certas que chegaremos aonde nos esperam.

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Neuza y Paula

Primeiros dias da LMC Marisa em Moçambique (parte III)

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Quinta feira, 17 de agosto de 2017

Esta manhã fui pela primeira vez ao bairro, à comunidade. No caminho de regresso o meu coração vinha cheio de alegria. Brinquei com as crianças. Àquelas que me falavam em macua, não consegui compreender o que me diziam. Assim como elas não me compreendiam também. Mas rimos e brincamos, e com esta alegria de sermos crianças conseguimos assegurar afetivamente alguma comunicação não verbal. Com as crianças, até agora, pelo menos, tem funcionado…

Ao passar na entrada da escola, à conversa com Sérgio estava uma senhora. Cumprimentamo-nos:

- Salama! Ihàli?

- Salama! Khinyuwo?

E não deu para mais. Se não contasse com a ajuda de Sérgio, não teria percebido o que a senhora me tentava comunicar. Por um lado, sentia-me agradecida: pela senhora que, mesmo compreendendo que eu precisava de tradução sistemática, não desistiu de falar comigo e de me contar como estava a família e saúde; pela pessoa que me acompanhou e traduziu pacientemente a conversa. Por outro lado, sentia-me envergonhada por não conseguir alcançar o que me estava a ser dito (não só ali, naquele bocadinho, mas durante toda a manhã, e noutros momentos singulares durante a semana, exemplarmente, na eucaristia de Domingo que fora celebrada em língua Macua).

“Depender de traduções exige paciência e humildade… ajoelha-te Marisa, faz-te pequena e sente-te grata”, consolei-me. 

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Voltei a casa. Estava a arrumar umas coisas quando ouço uma voz jovem:

- Hoti? (Dá licença?)

- Hotìni (faça favor), respondi.

Abri a porta e uma jovem esperava-me com um sorriso. “Oh, bolas! Estou sozinha em casa… se me vem pedir ajuda para o que quer que seja, eu não sei como lhe responder porque ainda não conheço nada…”, pensava enquanto saía...

- Sou Ancha, ouviste falar de mim? Vim me apresentar e dar as boas vindas…

Lá conversamos durante um bocado. «Tempo» … as pessoas aqui conversam e “gastam” tempo uns com os outros - desinteressadamente. Aquele preliminar foi mais uma lição. Aprende, Marisa.

À despedida disse-me qualquer coisa em macua. Não compreendi nem consegui devolver-lhe uma resposta. “Tenho que aprender qualquer coisa de macua… é o mínimo que sinto que posso fazer, para já, como reconhecimento a tamanha hospitalidade do povo…”, disse para mim mesma ao entrar em casa.

Ainda assim… apesar do desconforto que podemos sentir quando não sabemos alguma coisa, não saber «nada» também traz alguma saúde interior e criatividade.