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Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

Do Pedro Nascimento, um Magnificat e muito mais.

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Queridos amigos e amigas,

Agora mais perto de vós, desde a minha santa terra, Ervedal, no Alentejo.

O tempo de quarentena foi um tempo especial, de descanso, oração, de paragem para reflectir sobre a missão e preparação para este tempo em Portugal.

A casa onde fiquei a fazer a quarentena, casa com todas as condições, por 19 dias, foi cedida totalmente grátis pelo ser missão de alguém que o sente de fazer por inspiração de Nossa Senhora de Fátima.

E os alimentos para esses dias também foram cedidos, principalmente por duas famílias, igualmente generosas no seu ser missionárias.

Com a graça de Deus, também tive quem se disponibilizasse com transporte para tudo.

Mesmo em quarentena ainda fui mimado com várias visitas que me ajudaram imenso.

Depois de feito o teste à Covid-19, de saber o resultado, negativo, foi tempo de agradecer a Deus Pai e à Nossa Mãe e, depois, viajar para casa e estar com a família.

Entretanto, a mãe foi chamada para realizar uma cirurgia à bexiga, o que já aconteceu e correu bem, graças a Deus e à oração e comunhão de tanta gente. Agora continuarei uns dias por casa, estando com a família.

Espero voltar à Etiópia em Setembro, por mais alguns meses entre o povo Gumuz de quem muito gosto.

Agradeço todas as perguntas que me foram feitas e irei responder pessoalmente a cada um e uma de vós. Para além disso, iremos realizar alguns pequenos vídeos inspirados nessas perguntas para que possa partilhar a experiência missionária com todos aqueles que o desejem.

Antes disso, já preparámos um pequeno vídeo com algumas fotos sobre a missão na Etiópia e que podem visualizar aqui https://youtu.be/EXNECqSlWNg.

No vídeo, algumas fotos são sobre o trabalho que realizamos, como o trabalho na biblioteca, as visitas às comunidades e acompanhamento de catequistas, e as actividades com as crianças.

Alguns de vós têm perguntado como poderiam ajudar a missão na Etiópia. Actualmente, das várias actividades, existem dois projectos que carecem de ajuda económica: a biblioteca e os doentes.

A biblioteca continuará com as suas actividades: sala de estudo e consulta de livros, aulas de inglês e de informática. Para isso, precisamos de fundos para continuar a comprar livros e material escolar para serem usados na biblioteca e, por outro lado, a contratação de alguém que possa ser formado e continuar na biblioteca mesmo quando já não estejamos na missão, dando assim continuidade ao projecto.

O projecto dos doentes consiste no acompanhamento das pessoas doentes nas aldeias que visitamos: transportar e acompanhar os adultos e crianças. As distâncias são longas, ao centro de saúde ou a um pequeno hospital gerido pelas Irmãs Combonianas, com bom tratamento e preços acessíveis às pessoas. Por vezes, pagamos a medicação das pessoas que não têm possibilidade de o fazer. Tudo isto significa gastos com a gasolina, taxas dos exames médicos, medicamentos e, por vezes, comida para os que pernoitam no recinto da nossa casa.

Assim os que quiserem contribuírem poderão fazê-lo para a Conta dos Leigos Missionários Combonianos (LMC) que é a seguinte: PT50 0036 0131 9910 0030 1166 0 (Banco Montepio).

Pedia por favor, que enviassem um e-mail a referir o destino do dinheiro para o e-mail dos LMC com o conhecimento da ecónoma dos LMC, Sandra Fagundes.

A vossa ajuda sempre foi e é importante. A missão faz-se em Igreja, com os que vão e com os que ficam, sempre todos em comunhão. A alegria da missão e do Evangelho não é exclusiva de uns mas de todos nós que pertencemos à Igreja! Tu és Missão!

A ajuda mais preciosa será sempre a vossa oração. Essa oração silenciosa mas profunda que tenho sentido na minha vida missionária e que muito agradeço.

Termino com o Magnificat que escrevi, em Portugal, durante o tempo de quarentena, sobre o tempo vivido na Etiópia:

A minha alma glorifica-Te, Senhor, por tudo o que me permitiste viver na Etiópia.

Glorifico-Te, Deus Santo, por tantos rostos que agora habitam no meu coração.

Louvo-Te, Senhor, pela Tua Palavra que tantas e tantas vezes iluminou a minha vida.

Regozijo-me com tantos sinais da Tua presença no meio daquele povo lindo que amo e tanto bem lhes quero.

Quero dar-Te graças, Jesus, por me teres permitido viver o Teu Amor no meio de tantas pessoas, na biblioteca, nas aulas de inglês e de informática, nos jogos de futebol, nas visitas às comunidades, nos encontros de catequistas, nas visitas às famílias, nas idas aos centros de saúde.

As cruzes não faltaram, o desalento, a dor, as lágrimas… Mas onde abundou a minha fragilidade humana e espiritual, superabundaram a Tua Graça e o Teu Amor que sempre senti no meu íntimo.

Agradeço-Te imenso as dificuldades da língua, compreensão da cultura, clima, doenças, que me obrigaram a ser pequeno junto deste povo lindo.

O dom da pequenez ajudou-me a necessitar de ajuda, a ser humilde, a parar para contemplar, a querer aprender…

Obrigado por me ajudares a ser pequeno. Quanto mais pequeno, mais necessitei de Ti, do Teu Amor, do colo terno de Tua Mãe, do Vosso olhar sobre mim.

O meu coração exulta de alegria sempre que penso na Etiópia.

Meu bom Deus, quero cantar as maravilhas da Missão, dizer como os Apóstolos no momento da Transfiguração: como é bom estar aqui, anunciar o Teu Amor e, se necessário, sofrer por Ti.

Pedro

A Vida Continua

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Encontro-me diante do Senhor, em adoração eucarística e recordo-me de vós. Coloco-vos na minha oração: familiares, amigos e amigas, benfeitores, todas as pessoas que continuamente continuam a interessar-se por mim e pela missão na Etiópia.

Quando estou mais distante, a oração torna-se ainda mais importante. Porque acredito em Deus, sei que rezar não é um tempo perdido, mas um tempo ganho, de diálogo com quem me escuta e me fala. E, por isso, a oração torna-se tão importante. Coloco-vos no coração de Deus, peço por vós, pelo nosso Portugal e todo o mundo fustigado pelo Covid-19, pelos nossos cristãos, aqui, todos os Gumuz e por toda a Etiópia. Rezar faz-me sentir mais perto de todos os que amo.

O Covid-19 começa a dar sinais na Etiópia, as pessoas começam a falar mais e sente-se muitas vezes receio pelo futuro. Mas a vida não pára, não pode parar. Há campos para cultivar, casas para arranjar, comida para preparar e muitas bocas para alimentar, ainda que seja uma refeição diária.

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O Covid-19 parou as nossas actividades, parou todas as escolas, o funcionamento da biblioteca, as aulas de inglês e de informática, parou as nossas actividades com as crianças, as celebrações dominicais com os nossos cristãos. Porém, a vida não pára.

O Covid-19 fechou-nos em casa mas a vida não parou. E, por isso, quando decidimos visitar os nossos amigos refugiados, já lá não estavam. Tinham sido mudados para as suas aldeias de origem no dia anterior. Mudados para os locais onde sofreram e que receiam mas, por causa do Covid-19, não devem estar todos juntos na escola que os albergava. O local onde viviam está silencioso, as casas vazias, a escola habitada por soldados … E os nossos amigos? E as crianças com quem brincávamos? Foram-se! E não foi apenas o espaço que ficou vazio. Também eu o fico: vazio de um adeus por dizer, de um último sorriso, de um último jogo de futebol…

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O Covid-19 fechou-nos em casa mas a vida continua. Por isso, esta semana decidimos visitar as comunidades, para saber como estão e para que saibam que continuamos aqui, juntos na mesma luta. A vida, essa, continua.

O Covid-19 fechou-nos em casa e fechará, impede-nos de continuar os nossos trabalhos em plenitude, com as pessoas, mas esta semana confirmou o meu viver a missão: o mais importante da missão são as pessoas. Claro que estamos aqui para trabalhar, para fazer comunhão, dar o melhor de nós e dar testemunho da nossa fé. Mas tão ou mais importante que todo o precioso trabalho que fazemos é o tempo que vivemos com as pessoas. Viver entre as pessoas, fazer comunhão é dizer: és importante para mim! Como nos é dito em O Principezinho, “foi o tempo que dedicaste à tua rosa que tornou a tua rosa tão importante para ti”.

Obrigado a todos e todas pela vossa preocupação. Que o Senhor vos abençoe sempre!

Abraço apertado desde a Etiópia!

 

Pedro Nascimento

A Páscoa na Etiópia pelas palavras do LMC Pedro Nascimento

Comunidade em Gumuz - irmãs Franciscanas, MCCJ, Irmãs Combonianas, Bispo de Benishangul-Gumuz e Pedro Nascimento

Queridos amigos, queridas amigas:

A todos e todas desejo uma Santa e Feliz Páscoa!

Esta será uma Páscoa diferente. Para dizer a verdade, todas as Páscoas são diferentes, ainda que para os nossos olhos e coração, por vezes adormecidos, tudo pareça igual.

O Covid-19 mudou a nossa vida, fez-nos recordar de que somos pó e em pó nos tornaremos. Uma fragilidade que não nos retira dignidade mas que nos permite aumentar a esperança e a fé em Deus. Afinal a morte não é mais que uma passagem, como nos ensina Jesus com a Sua vida.

Tenho rezado (mais que o normal). Rezo pela minha família tão longe; pelos amigos, que estão bem presentes na mente e no coração; por todo o mundo dilacerado por esta doença. Parecendo pouco, a minha pobre oração é tudo o que vos posso oferecer neste momento.

Também nós na missão, estamos em quarentena. Todas as actividades foram suspensas. Já existe alguma informação sobre procedimentos de higiene, porém, a realidade aqui é completamente diferente da nossa. Iniciámos agora o Estado de emergência. Será impossível realizar confinamento como em Portugal: se não morrem de Covid-19, podem morrer de fome, por falta de alimentos, de trabalho ou de dinheiro. Se não morrerem de Covid-19 ou de fome, morrem vítimas de guerras étnicas como tem acontecido aqui. Tem morrido imensa gente nos últimos dias. As pessoas vivem com medo, os nossos gumuz evitam sair à rua ou fugiram para as aldeias do interior ou para a floresta. Vivemos numa cidade pertencente ao estado de Benishangul-Gumuz mas os gumuz não são a maioria nesta cidade e existe o desejo, para muitos, de que não vivam nesta cidade, de que não possam ir à escola (há um mês entraram na escola e tentaram matar 3 jovens gumuz).

A pertença étnica ainda é muito forte na Etiópia. Esta realidade fere-me o coração. É uma realidade que me ultrapassa. Tenho esperança que a normalidade regresse. Na cidade, a maioria das lojas estão fechadas.

Seja aqui, seja em Portugal, na Europa e em todo o mundo, estamos todos a viver a Paixão e Morte de Jesus na nossa vida, na nossa carne! Espero que também possamos viver todos a Sua Ressurreição no nosso coração.

Obrigado a todos e todas pelas mensagens de carinho e preocupação! Obrigado pela amizade!

Uma vez mais vos desejo uma Santa Páscoa para vós e toda a família.

Este amigo que vos quer,

Pedro Nascimento

Uma carta vinda da Etiópia

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Na nossa caixa do correio chega uma mensagem muito calorosa do nosso LMC em missão na Etiópia, desde Março de 2019, Pedro Nascimento.

 

Queridos familiares, amigas e amigos,

Espero que este e-mail vos encontre bem. Espero que toda a família esteja bem.

Graças a Deus estou bem.

Começo a sentir o forte calor, quase sempre de 40 graus que aqui se faz sentir. O calor que não se compara ao mesmo calor que sinto quando visito famílias, brinco com crianças ou trabalho com esta gente maravilhosa. Como dizia São Pedro, “como é bom estar aqui” (Mt 17,4).

Continuo envolvido na Biblioteca. Graças a Deus e à generosidade de algumas pessoas, foi possível comprar mais alguns livros para a Biblioteca. Os estudantes que aparecem podem ter acesso aos livros escolares básicos. Duas senhoras portuguesas, que aqui vieram trouxeram calculadoras e outro material. Muitas vezes procuro ter cadernos escolares e canetas e oferecer àqueles que não têm possibilidades económicas mas que revelam grande interesse. Sempre que solicitam algum livro em específico tentamos comprar. O seu tempo não é como o meu e posso ter dias em que me aparecem 2 ou 3 como ter dias em que me aparecem 20. Mas, como os compreendo. Jovens, com trabalho a fazer no campo, a estudar, com família e alguns com 2 ou 3 filhos, já. Como poderão ter tempo para a Biblioteca. A verdade é que arranjam e quando vêm estudam, há silêncio e isso deixa-me bastante alegre.

Continuo a ter um grupo fiel nas aulas de inglês e de informática. Eles gostam, têm desejo de aprender e eu, não sendo um especialista, tenho muito gosto em ensinar-lhes.

Tenho um grupo de estudo da Bíblia, em inglês, com 4 catequistas. Lemos a Bíblia, explico palavras em inglês, meditamos os textos, por vezes vemos filmes religiosos em inglês. Sinto-me muito feliz com eles.

Costumo ir brincar na escola que ainda alberga famílias refugiadas. Comprámos uma bola e isso é suficiente para reunir os jovens e para desfrutarmos de bons momentos.

Duas vezes por semana, no mínimo, acompanhamos os catequistas nas aldeias, visitamos famílias, brincamos com as crianças. São momentos que nos enchem o coração. Estar com as pessoas é fundamental na vocação missionária.

Com os Missionários Combonianos, com quem vivemos, todos os dias temos missa às 6.30 e todos os sábados fazemos uma hora de adoração eucarística. Às quintas-feiras vamos a casa das Irmãs Missionárias Combonianas, também com elas, temos uma hora de adoração eucarística e jantamos juntos. Às quartas-feiras eu e o David temos oração comunitária.

Apesar de todo este trabalho é desejo dos Leigos Missionários Combonianos, eu e o David (meu companheiro de comunidade) incluídos, iniciar uma nova presença missionária entre o povo Gumuz. Não somos os primeiros LMC na Etiópia mas somos os primeiros a trabalhar e a viver entre os Gumuz.

Assim sendo, estamos a visitar as comunidades, falamos com as pessoas, analisamos a situação concreta de cada vila e das famílias.

Infelizmente o carro que temos não nos permite esse trabalho contínuo. As estradas são péssimas e requerem uma carrinha razoável. Depois de um mês, só agora retomámos a brincar com as crianças das aldeias pois o nosso carro estava no mecânico, o que acontece com muita frequência. Para além de que continuamente estamos a pagar essas despesas. Será necessário comprar um novo carro que nos permita continuar o nosso trabalho.

Para além disso é nossa intenção construir uma casa numa das aldeias, junto das pessoas, e viver com elas. Juntamente com a casa iremos iniciar projectos. Ainda estamos a definir os projectos mas a construção de um jardim de infância para as crianças que passam o dia sozinhas, sem qualquer adulto e de um Lar de estudantes, que permita a alunos irem à escola, quando muitos não podem ir ou fazem 30 quilómetros diários para irem à escola são os projectos que nos parecem mais viáveis, tendo em conta o que já analisámos e ouvimos de jovens e adultos.

Infelizmente para realizar estes projectos será necessário dinheiro. Por isso peço a vossa oração para que possamos realizar a vontade de Deus junto deste povo lindo. Caso saibam de ONG´s que financiam este tipo de projectos, informem-nos, por favor. Toda a ajuda, por mínima que seja, é preciosa para Deus. E como sei que não estou sozinho aqui, tenho a certeza que estais comigo!

As adversidades por vezes aparecem, tais como tifo ou tifóide, mas estou alegre por ter sido enviado para este lugar onde Deus já se encontrava no meio destas pessoas.

Estou quase a completar um ano neste país lindo! Não duvido disso! É um país lindo! Estou feliz! Sinto-me feliz! Vivo feliz! Isso não significa que, não haja sofrimento. Significa que, apesar de todas as contrariedades que aparecem, vale a pena estar aqui, significa que Deus nos fortalece e nos dá os instrumentos necessários para realizar a sua vontade!

Continuo a ter-vos presentes na minha oração, continuo a sentir a vossa amizade bem perto de mim, continuo a aprender que a distância não quebra laços antes os fortalece, recordando-me diariamente o quanto a vossa amizade e amor são importantes para mim.

Beijinhos e abraços deste amigo que muito vos quer,

Pedro Nascimento

O Calor do Advento

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Vinda da Etiópia, chega até à nossa caixa de correio uma bela e sentida mensagem do nosso querido Pedro Nascimento, que, em missão, vive o primeiro Natal for de Portugal: um Natal em busca de Jesus, junto de um povo esquecido, por muitos, mas bem presente no meu coração.

Celebrámos ontem o Primeiro Domingo de Advento (em Portugal celebraram o III Domingo de Advento). Este será, certamente, o Advento mais quente da minha vida. Para além dos 35 graus que agora se fazem sentir, este será o Advento mais quente porque aqui, o tempo de preparação para o Natal está ainda protegido do consumismo exacerbado que em Portugal mata o nosso Natal.

Aqui não se gasta milhões com as luzes natalícias (muitas vezes não temos sequer electricidade ou água em casa), não se vê propaganda natalícia; não se vê a azáfama das compras de Natal e dos jantares e almoços de Natal. Aqui, simplesmente, se aguarda a chegada do Natal, em oração e contemplação, desejando que o Deus Menino nasça nestes lindos e sofridos corações. Aqui, entrego a Deus, esta realidade sofredora, que me destrói e me constrói, que me abre os olhos a uma realidade dura e bela, que me faz questionar o sentido do Natal e o modo como o vivo.

Jesus nasceu num estábulo humilde e pobre, rodeado de animais. Contemplando a realidade onde me encontro, são imensos os lugares onde Jesus poderia nascer aqui: na escola secundária, agora habitada por famílias gumuz, deslocadas de suas casas, tantas vezes sem esperança e com medo; nas famílias que visitamos e que muitas vezes nos oferecem para comer e beber do pouco que têm; na casa das crianças com quem eu e o David vamos brincar todas as semanas e que muitas aparecem descalças, sem roupa ou com as roupas rasgadas e todas as semanas a mesma roupa; na família que perdeu duas crianças, em simultâneo, na semana passada. Para todas estas realidades e muitas outras que não menciono o meu desejo é um só: Vem, Vem Senhor Jesus!

Confesso que tenho grande desejo de celebrar o Natal aqui! Será o primeiro Natal fora de Portugal, fora da família e claro que não será fácil! Mas é um Natal em busca de Jesus, junto de um povo esquecido, por muitos, mas bem presente no meu coração. Será um Natal em que também eu serei pequenino diante das dificuldades e desafios mas esperando a vinda do Príncipe da Paz, do Deus Menino, da Esperança que a todos quer iluminar.

O trabalho, aqui, começa a surgir: a biblioteca que estamos a iniciar, ainda com poucos livros (vamos comprando quando há dinheiro e quando os estudantes nos pedem algum livro em particular), mas que começa a ter vários estudantes; aulas de inglês na biblioteca; aulas de informática na biblioteca; estudo do Novo Testamento com alguns catequistas; actividades com as crianças nas aldeias; visitas e actividades com os jovens que vivem na escola secundária, deslocados de suas casas.

Sei que em Portugal estamos quase no Natal. Assim sendo, desejo a todas e todos, votos de um santo Natal, na certeza de que Deus virá e fará morada no teu coração! Que seja um Natal da Igreja Doméstica, da família e que em todos os lares haja um lugar para Jesus.

Pedro Nascimento

Uma viagem (in)esperada - Notícias da missão em Etiópia

Em missão, entre o Quénia e a Etiópia, a nossa LMC Carolina Fiúza escreve para a Revista Digital da Diocese de Leiria - Fátima (REDE). Convosco partilhamos o artigo.

No aeroporto, em Adis Abeba

Escrevo-vos já terminando uma semana de estadia em Nairobi, Quénia. Uma viagem turística que não era por mim desejada. Por motivos de força maior tive que sair do país (Etiópia): o visto que trazemos como missionários e que nos permite a entrada no país é um visto de negócios que apenas tem validade de um mês. Para estadias mais duradoiras (como a minha, de dois anos), ao chegarmos à Etiópia temos que conseguir obter nesse mês de validade do visto de negócios um outro visto - o de residência. No meu caso, esse mês não foi o suficiente para conseguir o visto de residência. O visto de negócios caducou e, por forma a não estar ilegal no país, tive que dar um salto até ao Quénia durante uma semana, para depois voltar a entrar e prosseguir o processo de obtenção do visto de residência de novo. Burocracias que traduzem uma exigente e difícil entrada neste país. Talvez possa dizer que, de uma maneira geral, a Etiópia é a tradução de uma história marcada por regimes e imperialismos exigentes, de grande controlo. É esta história que marca um povo! Não bastará dizer que viveram sob o regime de Imperadores até 1974 e que é dos únicos países africanos que nunca foi colonizado… a Etiópia tem história, uma grande história!

Sentimentos de tristeza e frustração assombraram o dia em que soube que teria que vir. Principalmente porque tinha começado as aulas de amárico há cerca de 2 semanas. Iria perder uma semana de aulas e todo um ritmo e envolvência na escola que é porta de entrada para esta cultura, que me põe estes sons das palavras em amárico a ecoar na cabeça, fazendo uma música pela qual me vou apaixonando. Não é uma língua fácil! Confesso sentir um paradoxo entre o entusiasmo de ser uma criança a aprender por imitação as palavras (como se dizem as cores, os alimentos, os animais, etc.), mas também um travo de receio. Receio por sentir que será tarefa complicada aprender rápido a língua.

Não me bastava já o amárico ser uma língua tão complicada, e agora tenho que ir para o Quénia, perder aulas, atrasar mais o domínio da língua! Assim nunca mais poderei prosseguir segura para o que vim – a missão! – pensava.

Temos a tentação de pensar que a missão é fazer, acontecer, programar e tudo o que seja do domínio prático. Porém, desenganemo-nos. Que me desengane eu também se penso que a missão propriamente dita apenas começará no dia em que viajar para permanecer na zona dos Gumuz e iniciar com os meus companheiros um projecto. Esquecemo-nos que não são, por vezes, as grandes coisas, aquelas que observarmos e palpamos, as que trarão mais vida. Não raras vezes, é no maior silêncio que mais operamos.

Poder-vos-ia dizer que é fácil conceber no meu íntimo este paradoxo de tempos de espera. Este que é agora um tempo de aprendizagem da língua faz-me sentir a falta de pôr em prática. Porém, relembro com carinho as palavras da minha amiga LMC Cristina Sousa (e que hoje se encontra em República Centro-África) quando dizia, em jogos de palavras, que partia em missão para pastar. Para pastar, parafraseando o nosso português tão maroto com a piada de que quem pasta nada faz. Mas também Para estar. P'astar. E é nestas palavras sábias que me digo copiosamente a missão, Carolina, já começou! Tal como vos digo a todos vós… para vocês, a missão já começou, a partir do momento em que são e estão no mundo como criaturas de Deus.

Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Já diz o ditado. Tiradas as teimas de que o Senhor queria que aceitasse a descoberta de um novo e maravilhoso país como o Quénia, posso agora dizer que valeu a pena vir e que foi para mim uma necessária permanência. Nairobi pode dizer-se uma cidade Europeia (ou Norte Americana?) – verde e organizada, ainda que muito cheia de tráfico, carros, pessoas, mas nada que se compare com o ar pesado que transporta Addis Abeba. Além de estudar amárico através de áudios que os meus companheiros de comunidade me enviavam nos intervalos de existência de internet, aproveitei para conhecer o centro de Nairobi com dois Quenianos, membros do coro da missa do Parlamento, na qual participei a convite do Pe. Comboniano Giuseppe Caramazza. É uma cidade de negócios também, bastando para isso vislumbrar o grande (íssimo) Kenyatta International Convention Centre, um edifício de 28 andares, que é palco de várias conferências, seminários, exposições e cimeiras internacionais.

Igreja em Nairobi

A propósito de missas, pelas terras vermelhas a sua preparação é já a premonição de uma grande festa. Muitos e cedo vêm a compor aquele que será o verdadeiro festival. Dizia-me um dos membros do coro: quando vais para um festival, para um concerto, preparaste não é? Pois então, temos que fazer o mesmo (e até melhor) para a Eucaristia, pois não há maior festa que essa! E esta é a lei por aqui. Uma Eucaristia onde ninguém “vem” apenas, senão participa: desde miúdos a graúdos. Todos têm algo para contribuir para este banquete, com a voz, dança, palmas, etc. Uma realidade transversal, não só no Quénia, mas também na Etiópia. Eucaristias que não têm tempo. Não são elas um mero sopro de 50 minutos, ou 1 hora, no qual tantas vezes vemos os que conversam com o relógio, olhando-o na esperança (quem sabe) de que a Festa já esteja a terminar. Não! Aqui, paradoxalmente, a Eucaristia demora um intervalo de 1h30-2h. O ritmo é de danças e músicas alegres, um ritmo definido, que desperta as almas… quando me dou conta, também o meu corpo balança, acorda, desperta. E, de repente, quando estamos cheios deste banquete que nos anima para a vida, a festa dentro da casa do Senhor acaba e os convidados permanecem no seu átrio à conversa. Olho para o relógio e o tempo parece que voou!

E assim é. O tempo aqui tem voado! Assim como voa este grande abraço que vos envio, muito cheio da minha boa saudade.

Com amor, Carolina de Jesus Fiúza (LMC)

 

in REDE - Revista Digital Diocese Leiria - Fátima, nº 26, 27 de Junho de 2016 (disponível em https://leiria-fatima.pt/noticias/uma-viagem-inesperada/ )

Ser missão na Etiópia - os primeiros olhares

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Para trás ficam Qillenso, Adola e Daaye e os meus olhos durante a viagem neste verde que contrasta com tudo o que tinha visto até agora desde que cheguei a este novo lugar onde Deus nos espera a cada um, pelo menos no abraço de uma oração que pode viajar desde bem longe (espero que desde os vossos corações). Aproveito a duração de uma viagem para tentar partilhar (nem que seja um grão) das maravilhas deste povo que tão bem me tem recebido.

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Estamos numa semana incomum. Aproveitamos que o início das aulas de Amárico apenas terá início a 3 de Junho (semana que vem) para vir conhecer as várias missões dos MCCJ e também dos LMC polacos (em Awassa) na zona sul da Etiópia.
Adis Abeba, onde reina a poluição, o ruído, o frenesim dos muitos carros e pessoas que deambulam sem regra pelas ruas. Poderia chamar-lhe uma comum cidade europeia não fosse a desordem que aqui governa. Viajar de carro é sempre uma aventura, pois a estrada aqui também pertence aos animais e pessoas (afinal, os carros chegaram depois!). De entre as várias e preenchidas ruas que aqui existem, a que me custa mais (até agora) atravessar é a indescritível Mexico Square, ponto de referência para a chegada a casa. Indescritível por não existirem palavras para desenhar a dor que me dá quando vejo aqueles corpos estendidos no meio de chão, corpos magros, sem vida a brotar, uns que não vêem, outros que não têm pés para andar. A estes corpos se encontram anexados muitas vezes o semblante de uma criança, cujo olhar perdido não passa despercebido. Faço histórias na minha cabeça que, provavelmente, são as suas. São mães desnutridas e os seus filhos. Como dói olhar e dói ainda mais não saber o que fazer!

A viagem esta semana pelo Sul da Etiópia permitiu também ter uma visão bem diferente e colorida deste grande e imenso país. À medida que viajamos de Adis Abeba para Awassa, Qillenso, Adola e Daaye, o cenário, a paisagem vão mudando os seus padrões e figuras. Se em Adis e Awassa há um manto de casas até onde a vista alcança, em Qillenso, Adola e Daaye a terra veste-se de vermelho e do verde da vegetação acabada de nascer pelo início das chuvas. Pelo caminho semeiam-se casas, estas já com uma configuração mais rudimentar e que são autênticas obras de arte. E o carro passa e os que o vêm passar olham. Olho-os também através do vidro da carrinha. Que olhar bonito! E sorriem sempre ao ver-nos a passar!

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Estou feliz pela missão que Deus nos entregou aos três e para a qual pedimos as vossas orações. A missão nunca será nossa. Também é vossa. Mais que tudo, é de Deus. Provavelmente, e conscientes disto, sabemos que os grandes e maduros frutos deste trabalho apenas (e Deus queira) serão visíveis daqui a uns largos anos.

Estou bem! A sentir tudo. As pessoas, os seus olhares, as suas palavras que muitas vezes não entendo, mas procuro responder com um sorriso, ou um olhar de ternura, ou usar as poucas palavras que já sei dizer em amárico. Tem sido um tempo de observar, ouvir, tentar perceber. Vantagens também de eu mesma não ter um nível de inglês fluente que me permita falar muito (e muito menos amárico). Tiro partido disso e acabo por escutar mais, observar mais. É tempo disso!

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A nossa passagem na rua é sempre motivo de olhares. As pessoas olham-nos, como se fossemos raros. Para as crianças é uma festa! Olham-nos e de sorriso esboçado lançam atrevidas:

- Farengi! Farengi! Ou China! China!

Na falta de saber o que fazer muitas vezes, olhamo-las e sorrimos. Estendem o braço e trocamos um aperto de mão. Ficam todas contentes de nos tocar… é recíproco! Num destes dias, em Awassa, visitámos as irmãs da Madre Teresa, e o expectável aconteceu: a mesma reação das crianças que se querem pendurar em nós... Correm na nossa direção para nos tocar a mão. E não só a mão. Os braços, a cara. E vão-se assim aproximando, deleitando-se com o nosso calor. Correm à procura do amor. E procuramos dar-lho. Na dificuldade de não saber muito amárico, digo o mesmo de sempre. Não posso limitar-me às mesmas palavras de sempre, pensava. Tento lembrar outras coisas que possa dizer, e lá me sai:

- Mndn new ?(o que é isto?) - pergunto apontando para a minha camisola.

- Makina (carro) - respondem várias, cada uma a seu tempo.

Repito a mesma pergunta para outras coisas, incluindo a cruz que trago ao peito.

E assim me vão respondendo. É uma festa para elas! E para mim. Mal sabem o quanto me estão a ensinar. Confio que são os melhores professores que poderei ter. Ficam contentes daquele pouco. Quem sabe com sede de mais, como eu.

Estou a sentir tudo, inclusive a saudade. Ai a saudade! Essa também me habita, como é claro (não fosse eu uma portuguesa... Daquelas saudosistas e nostálgicas)! Como alguém me disse, a saudade é o amor que fica. Por isso, quero sempre que esta saudade faça parte comigo.

Têm sido dias bonitos, carregados de novidade. Também com a comunidade, o David e o Pedro. Nas nossas diferenças, vejo três peças de um puzzle que se une e que encaixam. Tem sido bonito o irmos percebendo juntos ao que somos aqui chamados a fazer. Sentimos o peso da responsabilidade de estarmos a iniciar, a semear este grão que queremos que outros venham regar, ceifar, colher. A messe aqui é grande! Porém sentimos uma grande força de querer dar passos. Que o Espírito Santo nos ilumine a dar os passos certos, nos tempos e locais certos.

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Rezem por nós, pela missão e sobretudo por este povo que nos acolhe e que procura e luta pela vida, dia a dia.

Com muito amor, 

LMC Carolina Fiúza 

Missa de Envio LMC Carolina Fiúza

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Meus queridos amigos e amigas,

 
O meu coração está pleno e muito agradecido por tantas bênçãos e amor recebido no dia de ontem, 12 de Maio, onde na minha paróquia - Santa Eufémia - foi celebrado o meu envio. Foi uma cerimónia muito bonita... e não só a cerimónia, mas todo o dia em geral e animação missionária, foram momentos de grande partilha e fraternidade.
 

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O meu MUITO OBRIGADA A TODOS por toda a união em oração. Sinto-me uma sortuda... por vos ter a vós como família e tantos amigos que me amam e me dão força!

OBRIGADA!
 
Para quem não pode estar presente na Eucaristia, partilho as palavras que dirigi a todos.
 

Meu querido Pai do Céu,

 Esta é uma prece da Tua filha muito amada, Carolina de Jesus Fiúza, que hoje, com a força desta comunidade, é enviada por dois anos a amar o povo da Etiópia.

Desde há uns bons tempos que oiço o Teu convite a ecoar dentro de mim e que me diz:

“Faz-te ao largo e lança as redes para a pesca. Não tenhas medo: vem comigo ser pescadora de Homens. Vem, segue-me!”

Pois a Ti agradeço este convite e é com muita alegria que, como Maria, digo SIM, Faça-se em mim segundo a Tua palavra!

 A Ti devo um grande OBRIGADA pois este Sim é fruto de uma relação entre nós dois. A Ti muito OBRIGADA por nunca desistires de mim e porque em mim confias. A Ti também agradeço todas estas pessoas que aqui estão das mais diversas formas, física ou espiritualmente. A Ti agradeço estas mil vidas que, muitas vezes, sem o saberem, são também Mil vidas para a Missão, tal como pedia São Daniel Comboni: as Mil vidas para a Missão. Agradeço-Te a coragem e força que dão ao meu Sim e a confiança que em mim depositam.

A todas estas estas vidas e a Ti agradeço e prometo: prometo errar, falhar. É a condição humana! Porém, prometo tentar melhorar sempre, prometo aprender, escutar, calar, aceitar, entender, partilhar o que sou, receber o que são… e, mais que tudo, AMAR. Prometo entregar-me totalmente ao povo etíope e Fazer o que posso, com o que tenho, onde estiver.

Olho para mim e vejo-me pequena. Porém, é com as minhas limitações, com o que trago na minha bagageira, que me quero entregar a Ti e partir para junto dos mais pobres e necessitados, inspirada por São Daniel Comboni. E confio em Ti. Confio que Tu não escolhes os capacitados, mas sim capacitas os escolhidos. Assim, confio que me darás as capacidades para amar este maravilhoso povo da Etiópia, onde Tu já estás desde sempre.

Talvez muitos não entendam porque escolho partir em missão. Compreendo e aceito a incompreensão de muitos. E agradeço o apoio que, ainda assim e de forma incondicional, me dão. Tal como o meu querido pai diz, “o bem pode fazer-se em muitos lados!”. E não é mentira… porém, Tu meu Pai do céu, Tu que és um só Corpo, mas com muitos membros e cada membro com a sua função, Tu chamas-nos a todos a ser missionários, de formas muito distintas. Hoje e a mim, sei que me chamas a partir, chamas-me assim a ser um grão de trigo que morre na terra para que nasça fruto. E isto é um mistério. Tal como o mistério do Teu Filho muito amado que morreu na Cruz. Tal como Ele, também dou o meu Sim, pronta a fazer nascer e crescer a missão aos pés da Cruz. Conseguiremos nós alguma vez entender este mistério da morte de Jesus na Cruz, meu Pai? Talvez não. Da mesma forma, talvez não seja entendível o meu Sim para muitos. É um mistério, também. Também para mim a missão que me entregas em mãos é um mistério. Mas, ainda assim, digo Sim. Digo Sim confiadamente pois sei que nunca, mas nunca me abandonarás.

Meu Deus, Tu sabes a Gratidão que trago dentro a tantas pessoas. Sem oportunidade de mencionar todas, agradeço em especial à minha Família, àquela que me dá sentido, que me deu genes de missionária!

Agradeço-Te em particular a vida dos meus pais, Edite e Manuel Fiúza, que me educaram da melhor forma que sabiam. Sem eles, a minha vida, valores, dons… tudo o que sou, de forma alguma seria possível. Agradeço-Te as suas vidas e o fruto da sua criação que sou eu hoje, este dom que sou e que quero colocar a render. Agradeço-Te porque lhes dás a capacidade de me amarem e apoiarem incondicionalmente, ainda que, muitas vezes, não compreendam as minhas decisões. Peço-Te que os guardes, que olhes sempre por eles e que sempre lhes dês a força para lutar pela Vida, tal como me ensinaram a fazer.

Agradeço-Te a vida do meu namorado, Hélder Neves, que desde sempre me apoiou e me deu a força nos momentos de maior dúvida. Agradeço-Te o amor que nos une e que só de Ti pode vir. E sei que este Sim não é apenas meu, mas de ambos. Também ele aceita o convite de viver em missão comigo. E esta missão aceitamo-la com muita confiança! Peço-Te que olhes sempre por ele, acolhendo-o nos Teus braços. E que aquilo que Tu uniste, o amor que nos une a nós dois, jamais ousemos separar ou danificar. Dá-nos a confiança e a coragem de nos mantermos sempre unos!

Agradeço-Te a vida de todos os paroquianos da minha “terra, ó que linda de terra”, esta linda Santa Eufémia. Esta terra que me viu crescer e que me acompanhou na vida e fé cristãs. Entre catequistas, grupos de coro, sacerdotes que aqui já conheci (e já são três), e tantas pessoas que hoje olho e das quais trago o melhor… agradeço-Te a vida de cada uma. Um agradecimento especial ao Padre Nuno Gil, cuja jovialidade e força para chegar a todos não me deixam indiferente. Peço-Te que lhe sigas dando ânimo para continuar a conduzir e construir o Teu Reino aqui na Terra.

E, por fim, e sabendo que muitas outras vidas teria a agradecer, agradeço-Te toda a Família Comboniana. Agradeço por serem luz neste caminho em que procuro diariamente descobrir-Te e apaixonar-me mais e mais por Ti. Agradeço-Te pelo exemplo que cada um é para mim de vida inspirada em São Daniel Comboni e por possibilitarem que entenda cada vez mais e melhor a minha vocação missionária. Agradeço-lhes verdadeiramente pois em mim confiam a missão na Etiópia, e peço-Te que consiga sempre ser o melhor de mim como LMC.

Meu Deus, tu sabes o que trago dentro, melhor que ninguém. Tu sabes o quanto dói deixar o amor que tenho aqui. Porém, tu também sabes o quanto estou feliz pois, ali onde vou também me espera o amor. Pois vou ao encontro o amor, seguindo os passos de quem me convida.

Bem sabes, que este nunca será um Adeus, mas sempre um Até breve.

Até breve minha comunidade. Nunca tenham medo de dar o vosso Sim, pois Deus, como Pai misericordioso, nunca vos abandonará. Deixo-vos uma lembrança: uma Cruz tipicamente Etíope (que inclusive vos foi enviada por uma irmã Missionária Comboniana da Etiópia), para que recordem que todos formamos parte de uma mesma cruz, a Cruz de Cristo. Rezem por mim e pelo povo e missão na Etiópia. Confiem que nós também rezaremos por vós.

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LMC Carolina Fiúza

Notícias da Etiópia

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Queridos amigos e amigas,

Parti de Portugal no dia 6 de março de 2019. Cheguei à Etiópia no dia 6 de março de 2011. Estou mais novo.
Obrigado a todos e todas pelas manifestações de carinho e de amizade. Nas minhas orações coloco-vos no coração de Deus porque Ele, que nos ama a todos e a cada um de nós, em particular, sabe o que é melhor para cada um de nós.
Por isso estou aqui na Etiópia. Porque Ele, que me ama, sabe o que é melhor para mim! Não sei até quando. Sei apenas que estou e cada dia é uma aventura nova, um desejo sincero de viver a missão para onde me enviou.
Estou bem! Melhor que isso, estou feliz! Encontro-me a viver na casa provincial dos MCCJ da Etiópia, em Addis Abeba. Esta vai ser a minha casa nos próximos meses, enquanto estou a aprender o amárico.
O amárico é uma língua difícil. Porém, graças a Deus, até agora, ainda não caí na tentação de desânimo. Fortalece-me o desejo de estar próximo das pessoas, de falar com elas, de fazer comunhão. E, sem saber o amárico, isso é quase impossível ou mesmo impossível.

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Estou apaixonado pela Etiópia. Sei que vou ter momentos difíceis e duros, de dúvida e de desespero. Mas agora estou apaixonado. E quero viver este momento com intensidade, porque é único.

Vivo em comunidade com os MCCJ em Addis Abeba e sinto-me comunidade. Desde o início que fui maravilhosamente recebido. O nosso dia começa com Eucaristia e laudes às 6:30; depois do pequeno almoço, vou para as aulas, que começam às 8:30 e terminam às 12:00 e, após almoçar, início o estudo. Às 18:45 rezamos vésperas e, depois de jantar, por hábito, convivemos um pouco.

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A nossa casa está quase sempre cheia. Por aqui passam muitos missionários a caminho das suas missões em África. Já tive a oportunidade de conhecer alguns padres e até bispos. Já encontrei histórias lindíssimas e arrepiantes. Quão dura é, por vezes a missão… Mas sempre bela. A nossa vida está nas mãos de Deus.

Tive, já, a oportunidade de estar uns dias em Hawassa com os LMC aqui em missão. Que bonito foi. Até a um bolo tivemos direito, para comemorar a minha chegada. Na formação aprendemos que devemos receber bem os novos LMC. Mas receber essa calorosa receção e carinho é, de facto, extraordinário. Estou grato aos nossos LMC na Etiópia por isso.
Em Hawassa durante um passeio de bicicleta, furei as duas rodas. Foi um bom batismo. Este fim de semana participei num retiro dos “Comboni Friends”. Que bonito foi.
A celebração da Páscoa, aqui, será uma semana depois da celebração da Páscoa em Portugal. Aproveitando uma semana de férias, irei conhecer a missão com os Gumuz, o povo com quem, se Deus quiser, irei trabalhar. Estou entusiasmado. Depois contar-vos-ei como foi.
A todos vós e familiares desejo uma santa Páscoa e não se esqueçam de que Deus vos ama.
Estamos juntos no amor de Deus.

LMC Pedro Nascimento 

Uma mensagem do Pedro Nascimento para os seus amigos

43950203_1138699312948356_854667323326332928_n.jpgQuantas não são as preces que já se elevam ao mais alto dos céus, intercedendo pelo LMC Pedro Nascimento que no passado fim de semana foi enviado rumo à missão em Etiópia?! Pois foi com grande alegria que celebrámos em comunhão com ele e com a paróquia que desde cedo o acompanhou no crescimento na fé cristã - paróquia do Ervedal (Alentejo).

No fim da Eucaristia de envio, o Pedro discursou orante as seguintes palavras que hoje partilhamos:

Queridos amigos e amigas,

Hoje, de um modo especial, uma palavra inunda o meu coração: obrigado!

Obrigado a Deus pelo grande amor que me tem, pelo Seu perdão constante e pela Sua grande paciência para com as minhas fragilidades!

Obrigado à minha família simplesmente pelo que são para mim, pelo que fizeram de mim, por tanto amor recebido! Diz-nos Saint Exupéry: “foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a tornou tão importante para ti”. Foi o tempo que me dedicaram que vos torna tão importantes para mim. Peço ao Senhor que vos fortaleça e rogo à Mãe do Céu que vos acolha no seu regaço, vos proteja e vos dê a paz de coração! Não estão sós, nem eu irei só. Acompanhar-nos-á o Senhor e o Seu Amor, acompanhar-nos-á o amor que me têm e o amor que vos tenho. Nunca tenham medo. Como nos dizia São Daniel Comboni, “não podemos temer nunca quando temos uma mãe poderosa e amorosa que roga por nós”.

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Obrigado à minha paróquia, aqui representada pelo pároco, mestre e amigo, cónego Júlio Rodrigues. Foi nesta comunidade que recebi o Baptismo, a Eucaristia e a Confirmação. Foi aqui que fui catequizado, que dei os primeiros passos na fé, que aprendi os valores do Reino. Posso afirmar que a minha partida para a Etiópia é consequência desta comunidade, que me tornou filho de Deus, me ajudou a sentir-me Igreja e a viver em Igreja. Que São Barnabé acompanhe este seu filho, que o venera!

Estendo este agradecimento às comunidades de Figueira e Barros, Fronteira, Vale de Maceiras e Vale de Seda. Obrigado por tudo o que partilhámos e vivemos juntos, pelo que rezámos, pelas tantas vezes que louvámos o Senhor, pela amizade fraterna. Todos somos missão e a vossa presença aqui é uma presença missionária!

Obrigado Senhor Arcebispo, meu pastor, pela presença amiga. Obrigado por ser um bispo missionário, que desde o início convocou Évora para a missão. Consigo, também eu digo: “Não é a Igreja que faz a missão, é a missão que faz a Igreja”.

Obrigado queridos amigos. Cada um de vós é uma graça para mim, sois dons que Deus me tem dado. Obrigado pela vossa presença que é sinal de Amor e que tanto me enternece o coração. “Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós; deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.

Obrigado à família comboniana por tudo o que tem feito por mim, por me ajudar a perceber a vocação de Deus na minha vida, por tudo o que me ajudou a viver, pelas experiências de fé fantásticas que me proporcionou. Que o Senhor nos ajude a viver a missão segundo o carisma de São Daniel Comboni, que possamos ser as mil vidas que Comboni queria dedicar à missão. Obrigado especial aos Leigos Missionários Combonianos, movimento ao qual pertenço e com o qual caminho na vivência da minha vocação laical, missionária e comboniana. Que o Senhor nos ajude a ser santos e capazes, tal como nos pedia Comboni. Queridos LMC, sendo fracos, é na graça de Deus que somos fortes, santos e capazes.

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Queridos amigos e amigas, a missão faz-se com os pés dos que partem, os joelhos dos que rezam, as mãos dos que repartem e com a generosidade das comunidades que enviam.

Para mim, o mais importante da missão é a oração e a leitura da Palavra de Deus. Sem oração não há missão. Por isso vos peço: rezem por mim! Rezem pela minha fragilidade, pela minha pequenez. Peçam ao Senhor que me acompanhe, me fortaleça e me ajude a amar com gestos e, se necessário com palavras, o povo para onde me envia, que eu saiba amar e tenha compaixão das pesssoas, que eu não tenha medo de me enlamear e de me ferir, por amor às pessoas que passarão a ser a minha comunidade. Agradeço a vossa generosidade!

Etiópia é o destino para onde Deus me envia. Sabem porque parto? Acredito e confio que essa seja a vontade de Deus para mim.

Às várias questões que me colocam: porque vais? Porquê agora? Não gostas do que fazes? Porque deixas a advocacia – curiosamente faz hoje 3 anos que fiz a minha agregação? A todas elas tenho uma só resposta: Sei em quem pus a minha confiança! A decisão que tomei é a resposta às várias inquietações que Deus colocou no meu coração. Depois de muito discernimento, de muita luta interior, de muitas dúvidas e medos, decidi abrir o meu coração e seguir a Sua vontade. Digo-lhE como o profeta Isaías: “eis-me aqui Senhor, envia-me!”. E porque sei em quem pus a minha confiança, também sei que, tal como aconteceu com os profetas de Emaús, o Senhor caminhará comigo a meu lado, será o meu Deus e eu serei o seu filho muito amado. Quando me perguntam se vou sozinho de Portugal, digo sempre que não! Se Deus está comigo, se eu sou templo do Espírito Santo, como poderei ir só?

Tenho consciência de que esta partida terá várias dificuldades: a língua, nova cultura, os medos, a saudade…. Mas, também nesta comunidade, tive exemplos fantásticos de amor, de entrega e de fidelidade na dificuldade que muito me ensinaram e prepararam para agora. Recordo-me, em especial, de um membro desta comunidade. Seu nome era Fausto. Um homem de uma fidelidade a Deus incrível. Apesar das dores, dos problemas de saúde, nunca deixou de participar na Eucaristia. Caiu muitas vezes ao chão no caminho, aleijou-se… Mas sempre foi fiel a Deus e sempre quis viver Deus. Nunca o ouvi queixar-se de dores e era impossível não as ter… Não havia um único dia em que não rezasse o terço. Não sabia ler nem escrever, mas sabia mais de Deus do que eu algum dia saberei… As suas dificuldades eram muitas, mas a sua fidelidade e amor a Deus eram maiores!

Por isso, peço ao Senhor que me ajude a ser fiel ao caminho que escolheu para mim pois, como dizia o Pe. Ivo Martins, missionário comboniano, “a grandeza da missão não está naquilo que fazemos mas naquEle que nos envia”.

LMC Pedro Nascimento

 

Nós te enviamos Pedro. Por ti e pela missão rezamos.