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Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

Leigos Missionários Combonianos

Servindo a Missão ao estilo de S. Daniel Comboni

Jornal “Caminho” – a entrevista a Márcia Costa

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Foi em Abril que os LMC estiveram presentes na Paróquia de Cristo Rei da Vergada. Como tal, o seu Jornal Caminho de Abril, foi especialmente dedicado ao Movimento dos LMC. Neste especial edição, podemos ler uma entrevista à LMC Márcia Costa, um Testemunho do casal LMC Carlos e Sandra e notícias do Peru pela LMC Neuza Francisco. 

 

A entrevista a Márcia Costa, por Sofia Coelho

Márcia Costa, Leiga Missionária Comboniana, natural de Aveiro, nasce a 18 de julho de 1982. Conheci Márcia, em Moçambique, em agosto de 2015 e é lá que tenho o privilégio e consigo realizar este trabalho, mais um testemunho missionário. Já se passaram mais de dois anos e chegou a hora de publicar estas páginas de Missão. Mais um rosto de missão!

 

Sofia Coelho: Como encontraste Comboni? Conta-me um pouco do teu percurso.

Márcia Costa: Bem, eu digo que encontrei Comboni, um bocadinho por acaso, eu estava na universidade em Viseu e na altura era animadora de Juventude Operária Católica (JOC). E umas amigas em partilha…falaram-me de Comboni e do grupo Fé e Missão, convidaram-me para participar numa semana de animação missionária e lembro que na altura coincidia com o acampamento anual da JOC. Com esforço consegui conciliar e fui participar nessa semana, mas não conhecia Comboni, o que sabia ainda era muito pouco. Quando estamos a fazer uma caminhada, estás no teu caminho, respeitas naturalmente as caminhadas dos outros, mas vais passando ao lado. E como dizia, participei, gostei muito da experiência, passamos uma semana a trabalhar num lar de idosos e com outros jovens e foi aí que comecei a conhecer um pouco Comboni.

SC: E depois…?

MC: Depois resolvi fazer a caminhada do Fé e Missão para conhecer melhor, um pouco mais de Comboni. Porque eu sempre quis partir para outros países, mas eu pensava…partir ligada à Cruz Vermelha, ou a alguma instituição. Sempre quis esta parte social, trabalho social, ajudar as pessoas. Mas ao ir caminhando e avançando na espiritualidade começou a fazer sentido fazê-lo num serviço a Cristo. Como uma vocação…

SC: Márcia e Comboni fez sentido?

MC: Sim. À medida que eu fui conhecendo um bocadinho melhor, fez sentido, o seu carisma. O seu lema de “Salvar com África”, é naquilo em que eu acredito, penso que nós devemos trabalhar para formar líderes, deve ser o próprio povo a proclamar a sua autonomia, o seu desenvolvimento e o seu reino de justiça e paz. Ajudar as pessoas a acreditarem em si mesmas, a acreditarem que Deus está no meio deles. Entendi que era por aqui o meu caminho.

SC: E esse caminho? Dúvidas? Como chegaste aos LMC’S (Leigos Missionários Combonianos)?

MC: Claro que tive muitas dúvidas. Sabes ainda por cima existe aquela célebre frase, “Para as Missões, Santos e Capazes…” E eu pensava muitas vezes nem santa, nem capaz, e se é isso que querem então não é para mim…(risos…)

SC: Entendo bem (risos…)

MC: Mas fui querendo conhecer melhor e mais Comboni. E depois da caminhada do Fé e Missão fui então para os LMC´s.

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SC: Márcia os nossos leitores, na sua maioria, talvez nunca tenha ouvido falar dos Leigos, queres explicar, um bocadinho, para todos entendermos?

MC: Um Leigo, é uma pessoa comum… um Cristão comum que decide dedicar um bocadinho a sua vida para uma Vocação. No nosso caso, partilhamos a Espiritualidade Comboniana…este Salvar África com África, estar disponível a partir ao encontro de outros povos de outras culturas e de aprendermos um caminho de salvação/de conversão, o ter a certeza que não caminhamos para salvar, mas que somos salvos com o povo. Porque é Deus quem nos salva. Ser Leiga então é fazer este caminho de Cristo.

SC: Que idade tinhas quando assumiste este caminho?

MC: Upss…dois anos de formação…eu tinha uns 26 anos, quando fiz o meu compromisso. Parti em seguida para França para aprender o francês e só depois fui para a República Centro África.

SC: Muito bem. Antes de contares a tua experiência missionária na República Centro África e mesmo antes de falares desta que hoje vives aqui em Carapira, Moçambique, diz-me o que é a Missão?

MC: Ui…(hesita…) o que é a Missão? (risos…) Não é uma resposta fácil, porque a Missão tem vários aspetos na Missão. Tem a dimensão do eu; a dimensão dos Outros e a dimensão de Cristo. A Missão é Cristo! E dentro da dimensão que é Cristo, tem o encontro com o Outro. E dentro do encontro com o Outro, tens o caminho de conversão pessoal. E Sofia, digo isto porque por vezes quando pensamos na Missão, pensamos só no que vamos dar, porque queremos dar e nós somos assim, gente que gosta de dar, e quando chegamos à Missão encontramos outros povos que vivem de outra maneira, que vivem com diferentes formas e que vivem com diversas dificuldades mas que são felizes e vivem Cristo, não à tua maneira mas à maneira deles vivem Cristo, e é complicado porque quando vês Cristo é a maneira correta, foi a maneira que te transmitiram, a maneira como o vês desde pequenina e por isso é correto. E é difícil por vezes aprender esta abertura. É todo um caminho que é preciso fazer, parece fácil quando fazemos o curso de missiologia, quando falamos de inculturação, nós somos “super disponíveis”, “super tolerantes”, “capazes de amor incondicional”, e aqui falo por mim naturalmente não é assim tão simples, na prática, chegas e vês-te confrontado com uma realidade toda ela diferente e naturalmente tens reservas… Não é assim tão linear, por isso falo em conversão pessoal, porque vais aprendendo as tuas limitações e à medida que estás a “lavar os pés aos outros” eles estão a lavar os teus também e assim mostrar-te que também têm Deus. E percebes que Deus é muito mais do que aquele Deus que conheceste desde pequenino, Deus é muito maior. E nós somos a Imagem de Deus! Não sei se me estou a fazer entender, não te consigo falar em missão numa palavra, ou numa frase.

SC: Sim entendi, e penso que foste muito clara, e creio que o/a leitor/a também irá perceber, agradeço a forma sincera como respondes à questão, sem frases feitas, contando de facto uma realidade. Márcia tenho aqui mais algumas perguntas, mas antes dá-me alguns exemplos em que vês Deus, em que vês esta Imagem de Deus de que falas, consegues dar-me exemplos concretos? A partir da tua experiência pessoal?

MC: Eu lembro, esta imagem que temos de Deus, da Criação do mundo, olha por exemplo na RCA, tinha um Pigmeu, o Gabriel, e eu gosto muito dele, bastante sorridente, sempre a sorrir ele era fantástico. E ia lá muitas vezes a casa. E nós tínhamos uma mangueira (árvore de fruto) que estava seca lá na frente da nossa casa, e então pensei vamos cortar para depois plantarmos uma outra árvore. Então falei com Gabriel, “Gabriel podes cortar a árvore, nós pagamos”, ele disse que sim. E demorou dias para cortar a árvore e a mim fascinou-me o respeito dele pela criação de Deus, estranho como disse a árvore estava seca, mas ele muitas vezes parava e falava com a árvore, o respeito, o pedir-lhe desculpa e o agradecer-lhe por tudo o que ela já nos tinha dado. Aí está a imagem de Deus, quando estás lá (no teu país) a lutar com o mundo porque estás zangada com umas quantas coisas e porque tens a tua maneira de pensar… tu tens ali uma pessoa a falar-te de Deus, não aquele “teu” Deus tradicional, da Igreja, do batismo, mas aquele Deus que nos criou a todos, aquele Deus que criou toda esta natureza fantástica para nós. Por exemplo quando o homem ia apanhar o mel, enquanto o homem subia a árvore as mamãs faziam uma dança de agradecimento cá em baixo, para agradecer a árvore que acolheu a colmeia, para agradecer as abelhas que produziram o mel. Ali com os Pigmeus, aprendi esta simplicidade, vi a Laudato Si, ali ao vivo e a cores. Porque nós quando partimos, por vezes dizemos que vimos ajudar os “coitadinhos”, os “mais desfavorecidos”, ajudar a “miséria humana” e aqui volto a dizer-te que falo por mim, quando chego na missão entendo que a “miséria humana” existe realmente, mas muitas vezes ela vive dentro de mim, com as minhas limitações, com as minhas dificuldades de saber amar os outros, ou de saber escutar o Outro com o respeito que ele merece. Ou de promover mais a sua dignidade. Muitas vezes parece que estamos com um pé a cima, porque estamos com uma atitude de quem está para ensinar, quando nós devemos estar na atitude de aprender. E isto às vezes é complicado, ainda mais quando partes pela primeira vez, e nós vamos para dois anos, o teu primeiro pensamento é muitas vezes o de querer “salvar o mundo”, somos todos muito capazes…(risos…) muito sonhadores (mais risos…). Então tu queres chegar e “fazer” e antes de tudo mais é preciso escutar. Dar tempo de perceber a cultura. E tempo para não te zangares. Eu na RCA no início zangava-me muito. Não foi fácil, nós vivíamos numa situação muito pesada a nível social. O Povo Pigmeu era escravo, existia um sentimento de posse. A criança Pigmeia, não nasce livre. Então depois tem toda a questão da feitiçaria então quase que é impossível não te zangares. Mas precisas de aprender que mais do que falar é melhor ouvir. E é preciso caminhar juntos. Depois é verdade, são os teus católicos que estão a matar aquela pessoa que foi acusada de feitiçaria, é verdade, mas a pergunta é: “E se eu tivesse nascido aqui?”. “Qual era a minha atitude?” Então é preciso este caminho. E não é mais do que um caminho de amor. E Deus é amor. Mas o amor tem diferentes maneiras de ser interpretado. Então a maneira como experimento o amor é diferente, será diferente no Povo Macua, diferente no Povo Pigmeu…Então é preciso aprender como se vive o amor.

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SC: Muito bem, RCA, teu primeiro destino de Missão, tinhas portugueses? Conta um bocadinho?

MC: Fui sozinha. Mas fui ao encontro e fazer comunidade com Susana Vilas Boas e Maria Augusta, ambas portuguesas e Leigas Missionárias Combonianas. Depois eu fui para casa das Irmãs, para aprender a língua local, e fiquei lá uns três meses, então quando regressei, já não estava a Maria Augusta, e fiquei a fazer comunidade com a Susana. Depois a Susana regressou e chegou a Élia também portuguesa e Leiga Missionária Comboniana. Nós não nos conhecíamos antes, mas era a mesma cultura.

SC: Quais eram as tuas funções na RCA? Aqui em Moçambique já vi que existe uma mistura, auxilias na escola, trabalhas na cantina, efetuas tarefas na enfermaria, na pastoral, trabalhas com grupos de Infância Missionária, na consciencialização e evangelização e na República Centro África como era, porque já senti que são realidades diferentes e se me permites senti uma certa paixão da tua parte pela Missão RCA?

MC: Lá nós tínhamos funções concretas, mas depois precisávamos de entrar todas um pouco em tudo. Mas lá existiam escolas de integração para as Crianças Pigmeias, uma no centro da missão e as outras ficavam no meio da Floresta. O meu trabalho era então acompanhar um bocadinho o trabalho realizado nas escolas e acompanhar também os pais, pois tentávamos incluir os pais no processo da educação, mostrar a importância de aprenderem a ler e a escrever até por uma questão de defesa do próprio povo.

SC: Vives a Espiritualidade Comboniana, tens alguma frase assim com a qual te identificas?

MC: Tem vários pensamentos de Comboni que fazem muito sentido, mas como te disse antes concordo muito com o lema de “Salvar África com África!”

SC: Márcia eu agradeço a tua disponibilidade em aceitares responder a estas questões, tinha outras, claro está, mas fica para uma próxima oportunidade. E quem sabe talvez em Portugal ou num outro país de Missão. Obrigada! E em nome da minha equipa jovem, agradeço o testemunho.

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Obrigado Márcia.

Por: Sofia Coelho

Fim de semana de animação Missionária na Paróquia de Vergada

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No fim semana de 20 a 22 de Abril realizou-se mais uma animação missionária, desta vez na paróquia da Vergada à qual pertence a Sofia Coelho que está a fazer formação connosco.

Sofia Coelho, formandaLMC Márcia Costa

Um fim semana de uma alegria enorme, onde fomos muito bem acolhidos pela comunidade e pelo pároco, o Pe. António Machado.

Pe Francisco de Medeiros, Missionário CombonianoDesde sexta feita que iniciámos as nossas atividades com o grupo de jovens e acólitos, passando pelas catequeses no sábado e as eucaristias de sábado e domingo na qual também tivemos a presença do Pe. Francisco de Medeiros, Missionário Comboniano assistente do nosso Movimento.

 

Os fins semana de animação missionária são sempre momentos muito enriquecedores, entramos na vida da comunidade paroquial onde falamos da nossa experiência e tentamos trazer até eles um pouco da missão, o que vivemos e sentimos pelos locais onde estivemos! São momentos de partilha que nos enriquecem de uma forma incrível e nos fazem sentir que o amor de Cristo, o Bom Pastor, vive em nós e nos que nos rodeiam sempre (mesmo quando achamos que não)! Podemos perceber como esta paróquia é missionária e aberta aos outros, aos que mais precisam, não é uma paróquia fechada! E isso é uma graça tão grande!!! Estes momentos fazem-me recordar que também estou em missão em Portugal e que apesar de uma forma diferente é tão valida e importante como uma missão além-fronteiras. Este fim-de-semana também se celebrou o dia das vocações, e como me sinto feliz de partilhar a minha vocação de Leiga Missionária Comboniana com os que encontro!

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Tenho que partilhar de como fomos mimados!!! A D. Rosa, a Sofia e o Pároco não deixaram faltar nada, ficámos muito bem instalados e as refeições foram uma maravilha! Não posso esquecer os Malucos por Jesus (grupo de Jovens) e os catequistas que nos deram sempre apoio no que precisámos! Obrigada de coração!

Sandra Fagundes

Leiga missionária Comboniana

“Sou pedrinha, sou Igreja” – 6ª Unidade Formativa LMC

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Nos dias 17 e 18 de Fevereiro tivemos a formação “Sou pedrinha, sou Igreja”, em Viseu. No Sábado, tivemos como formador o Pe. José Augusto Duarte Leitão, do Verbo Divino, que ao longo do dia nos foi falando de princípios da doutrina da Igreja: a centralidade da pessoa humana, o bem comum, o princípio da subsidiariedade e o princípio da solidariedade. Fomos vendo, refletindo e participando, momentos da vida da Jesus em que estes princípios se fizeram presentes e tão notórios. Fomos percebendo que estes princípios se interligam quase sempre e que nos mostram como devemos agir e relacionarmo-nos no mundo, à luz de Jesus Cristo e da Igreja. Dá-me confiança e esperança perceber que muitas das coisas que me fazem sentido e que tento ter presentes no meu dia-a-dia são consideradas pela Igreja como estruturais de uma doutrina social e caritativa. Percebi que aquilo em que acredito e para a forma como vejo a vida e a minha relação com os outros e com o mundo que me rodeia é aquilo que a Igreja defende e promove.

 

Tivemos depois um momento de oração, um pouco diferente, com recurso ao Passo a Rezar e foi tão bom! Guardo as palavras “És precioso aos meus olhos”, tento não me esquecer deste Amor que Deus tem por mim, desta valorização da minha pessoa aos seus olhos. Haverá maior alegria do que esta, de me saber amada pelo Senhor? Só Ele me salva, só Ele me conhece e é Ele que me chama pelo nome e me faz correr ao seu encontro nos outros, naqueles que se cruzam comigo. É Ele que me chama a servir, a amar, a dar. É Ele que me chama a ser Amor, como é comigo. Sei que muitas vezes estou longe deste amor pleno, sou frágil… Mas sei que sou uma pedrinha nesta Igreja do mundo, tenho o meu lugar e vou tentando dia após dia torná-lo num sítio melhor.

 

À noite vimos o filme Germinal, um filme francês que retrata a luta pelos direitos de uns trabalhadores numa mina. Foi intenso, tanto pela história que retratava, como em termos de imagem. Foi duro! Mas foi também empolgante, e fez-me pensar em tantas desigualdades e em como muitas vezes temos de nos sujeitar a certas coisas que podem não parecer bem à primeira vista, mas em que, no fundo, não perdemos a nossa integridade como pessoas, e que apenas estamos a lutar por um bem maior.

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No Domingo, tivemos connosco o ir. José Manuel que nos veio falar da urgência de unir a mente com o coração, para conseguirmos voltar à essência do Amor de Deus, que Jesus nos veio trazer. E só unindo a mente com o coração podemos olhar o mundo e podemos encontrar este Amor que transforma. O ir. José Manuel falou-nos das situações que tem acompanhado desde que está em Portugal, como a situação do Bairro da Torre ou uma comunidade de ciganos que está desalojado e sem condições, em Beja. Essencialmente falou-nos do sofrimento de pessoas que habitam no nosso país e com o qual não consegue ser indiferente. Retive a ideia de que é importante ir à causa do problema, escutar as pessoas, perceber a origem das situações de sofrimento e agir em conformidade, sempre à luz do que Jesus Cristo faria. Sempre à luz do Seu Amor.

 

Foi bonita a forma como o testemunho do ir. José Manuel veio trazer para a vida os ensinamentos que o Pe. José Augusto nos transmitiu no sábado. Foi bonito ver esta unicidade entre a “teoria” e a “prática”, como os ensinamentos da Igreja se fazem presentes no nosso dia-a-dia e principalmente se devem fazer presentes no mundo em que vivemos. Sinto que quero ser uma pedrinha viva desta Igreja e que não dá para ficar indiferente ao sofrimento do mundo. Há que agir, há que lutar, há que fazer a nossa parte! E para terminar, guardo uma ideia que o irmão nos deixou “vais para onde manda a agenda de Deus”… E é essa agenda, aquela em que reina o Amor de Deus, que comanda a nossa vida e a nossa missão no mundo. Saiba eu deixar-me levar para onde me leva a agenda de Deus.

 

Ana Isabel Sousa

1ª sessão de Formação FEC - Voluntariado Missionário e Espiritualidade

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"Voluntariado Missionário e Espiritualidade” foi o tema da 1ª sessão de formação para voluntários da FEC, que se realizou nos passados dias 13 e 14 de janeiro de 2018 na Casa de Saúde do Telhal (Sintra). Nela participaram alguns LMC e formandos. E assim deixamos o testemunho da Ana Raposo, participante desta formação da FEC.

No 1º encontro da FEC aprofundámos a temática " Alegria do Evangelho" que tem como mentor o Papa Francisco. Alegria do Evangelho chama-nos para uma igreja em saída para cuidar da casa comum, uma igreja que contempla o mundo na alegria, no amor e no louvor promovendo assim o bem comum e o cuidar do próximo. Fala-nos de um procurar- te em ti, o descobrir um " tu" que me faz um eu, ter como missão acolher a vontade de Deus e levar Deus que já lá está, acender a chama. Essa alegria, esse amor, foi vivido nesse fim de semana, na formação e na homilia de domingo. O brilho e a alegria que imanava o pároco e os utentes crentes apesar das suas limitações e do formador Juan Ambrosio que nos fez ver com outra perspectiva enquanto nos dissipávamos de algumas dúvidas.

Deus o amante, Jesus o amado, Espírito Santo o amor.

Deus é Amor, Alegria.

Ana Raposo

Partida da LMC Cristina Sousa para a RCA

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Esta tarde a nossa Cristina partiu em Missão para Mongoumba, na República Centro Africana, onde se juntará à comunidade de LMC's ali presentes (a nossa Maria Augusta de Portugal, a Anna da Polónia e o Simone da Itália).

Como seria de esperar, foi um momento de fortes emoções, onde se misturavam os problemas burocráticos do peso das malas com a agitação interior natural que provoca a despedida de familiares e amigos por um período de tempo significativo como são 2 anos.

 

 

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Ao ver a Cristina a despedir-se e a aproximar-se das escadas rolantes que cortariam o contacto visual connosco, senti claramente que os olhares se torvavam e ainda se abraçavam, como se quiséssemos permanecer juntos mais um bocadinho, mas as escadas lá começaram a subir e a Cristina partiu.

No caminho para casa vinha impressionado pela cena (como se já não tivesse tido a graça de testemunhar outras despedidas igualmente intensas) e pensava em que tipo de força estaria no cimo daquelas escadas rolantes para atrair a Cristina com mais força que os nossos desejos de permanecer juntos mais um bocadinho.

Olhando para dentro acho que a resposta não pode ser outra que Jesus.

É Jesus que, a partir da nossa interioridade, nos chama a deixar tudo e segui-Lo... para onde Ele quiser.

É Jesus que quer sempre dar a Boa-Nova especialmente aos pobres e que, ao fazê-lo connosco, nos desafia e envolve num encontro cada vez mais profundo com Ele.

Esta decisão de partir poderá parecer a alguns egoísta.

Mas não é.

Esta decisão vem da escuta que põe a nu um imperativo de consciência de que é aquilo que devemos fazer.

É Ele que nos chama!

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A dor da separação dos nossos familiares e amigos virá justamente comprovar de que não se trata de uma decisão egoísta, mas sim altruísta, maior do que nós.

Quanto a nós, os que ficamos, apesar da saudade estamos felizes porque vemos aqueles que amamos a viver a vida em pleno... cheia de sentido.

Participaremos nesta missão de pleno direito através da oração, da saudade e do apoio que damos à decisão (mesmo que por vezes não compreendamos).

Agradeço do fundo do coração o testemunho da Cristina e da sua família, bem como a todos os LMCs e familiares que vão passando pelo aeroporto a demonstrar de forma viva que o Espírito continua a soprar onde quer e a ter impacto nas nossas vidinhas tão ocupadas do dia-à-dia.

 

Um grande abraço a todos.

Até breve Cristina!

LMC Pedro Moreira

Natal em Moçambique

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Nas vésperas de Natal quase que só me apercebia da sua proximidade cada vez que ia rezar e ‘dava por mim’ a folhear a Liturgia nas páginas do Advento.

Sei que, muito provavelmente, se não estivesse aqui, tudo em meu redor evocaria o Natal. A proliferação de natais comerciais trataria de me enquadrar nesta estação a partir do terceiro trimestre do ano, praticamente, num jogo astuto e paulatino.

Entre os jogos de luzes, as decorações interiores e exteriores, sugestões tanto para os Menus cada vez mais requintados como para o dress code da noite de Consoada e do almoço de Natal, a magia que se sente nas ruas das cidades, as típicas músicas da quadra (‘mais do mesmo’ mas, até os clássicos deixam saudade), … Entre um ou outro jantar entre amigos e grupos disto e daquilo, nada deixaria escapar a atenção, nem mesmo dos mais distraídos, para ‘O que está para chegar’.

Aqui, não há nada – disso. Nas cidades testemunham-se alguns sinais de ‘natais importados’. Mas aqui, não. Os sentidos não são invadidos por esta avalanche de estímulos. Não há o frio e os vidros embaciados que deixam ver as luzes a piscar. Não se ouvem as músicas corriqueiras. Não se sente, nem se adere, à bulimia das compras nem dos presentes – e, muito menos, das aquisições e das ‘necessidades’ de última hora. Não se assiste ao ‘sozinho em casa’ na televisão. O calor é demasiado para se substituírem os chinelos, as saias ou calções e as t-shirts por roupa mais quente. Não se publicita o bacalhau nem o azeite virgem extra. Não há o bolo- rei, as rabanadas, filhoses ou bolinhos disto e daquilo. Não se impingem brinquedos nem se embrulham promessas de pequenos paraísos instantâneos e de curta duração.

Confesso que, na semana que antecedeu o Natal, eu me senti um pouco apreensiva: por ser o meu primeiro Natal na Missão, por sentir saudades da família, particularmente, nesta quadra, por ser tudo tão único e diferente do que estava habituada, … e até por não termos tido energia nem água nesses dias, dificultando a comunicação e desafiando a criatividade…

Mas, este ano, o Menino Jesus trouxe-me esta aprendizagem: o Natal não é ornamento.

Ao nosso redor pode parecer Natal, mas nunca o será se ele não estiver já dentro de cada um de nós. O Natal é, também, movimento, uma itinerância. Temos sempre de caminhar para o encontrar. Se queremos ver uma ‘grande luz’ temos de nos levantar e partir; temos de ir ao encontro das manjedouras onde se encontra o sofrimento humano; temos de voltar ao estaleiro onde nos deparamos com a simplicidade; temos de regressar ao presépio onde a esperança de Deus e a esperança da humanidade se encontram - mas, com a confiança de que, entre o silêncio e a palavra que procuramos, uma estrela nos guiará, sempre.

O Natal, acredito, acorda-nos para voltarmos às nossas verdadeiras raízes, para o primeiro sonho de Deus para cada um de nós. A infância de Jesus é, também, a nossa infância. É por isso que, depois de uma espera demorada encontramos paz quando, finalmente, repousamos em Deus.

 

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Curiosidade…

Depois da independência Moçambique tornou-se um estado laico. No entanto, o feriado do dia 25 de Dezembro foi preservado, não por ser dia de Natal mas como o Dia da Família. Assim, neste dia, independentemente da religião que professem, as famílias encontram-se e celebram o dom da Família (claro que, para a comunidade cristã, este dia é ‘mais do que isso’, é o dia do nascimento de Jesus, em que a Salvação e a verdadeira Paz descem à Terra). Assim, desejavelmente, reúnem-se para confraternizarem e recuperarem forças para o ano que está por vir – mas, afinal, não é, também, isto o Natal?! No Natal, cada vez que celebramos a esperança conseguimos dizer no nosso coração “a Humanidade tem futuro”.

 

 

 

Deixo parte de um poema de José Tolentino Mendonça (“O Presépio somos nós”) que me acompanhou nas últimas semanas:

 

O Presépio somos nós

É dentro de nós que Jesus nasce

Dentro de cada idade e estação

Dentro de cada encontro e de cada perda

Dentro do que cresce e do que se derruba

Dentro da pedra e do voo

Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo

Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece

 

 

Esperando que tenham tido um Bom Natal,

Votos de um Feliz Ano Novo,

Marisa Almeida.

Comunidade de Portugal - Experiência e ilusão

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As qualidades de cada uma podem enriquecer a outra.

Este tempo que passamos em comunidade, o vivemos como um período de preparação para a missão.

A ruptura com a vida conhecida até agora, trabalho, convívio com os amigos, família, prioridades de uma sociedade de consumo, etc. mudam para chegar a uma sociedade de subsistência. Fazendo-nos repensar o que de facto são prioridades e/ou necessidades de verdade.

Estando sempre focadas, na missão e com olhos fixos em Jesus o nosso planeamento comunitário começa quando nos damos conta da riqueza que temos, a experiência de uma e a ilusão da outra, permitindo-nos ultrapassar os desafios que diariamente somos confrontadas.

Medos, desânimo na aprendizagem da língua, inseguranças de não responder às expectativas e necessidades da missão, dificuldade de adaptação e todos outros pensamentos que muitas vezes nos assombram, rapidamente são ultrapassados com momentos de respeito mútuo, oração e partilha.

Com a nossa tentativa de entendimento as gargalhadas se fazem presentes, pincelando com muitas cores os nossos corações, de amor e alegria.

LMC's Cristina e Teresa

Estar aqui. Com eles e entre eles!

22790782_10215031450241977_2067650889_o.jpgEstamos num dos lugares mais bonitos do mundo. Apenas deveremos acrescentar que neste lugar, algures, perdido entre os vulcões Chachani e Misti, vive um povo, um povo humilde no qual fazemos morada agora.

Ao longo da nossa ainda precoce caminhada, são já muitos os rostos que ficaram cravados em nós. Talvez porque a desumanidade se faz presente de uma forma tão evidente que em última das hipóteses leva à morte. São já muitas as histórias de violência que nos foram contadas não apenas através de palavras, mas através do testemunho vivo de quem diariamente luta pela esperança da mudança. Ou não seja este país, Peru, o país onde os níveis de machismo são dos mais elevados de mundo. Neste testemunho de Manu Tessinari, podemos conhecer de uma forma mais profunda esta realidade:

 

“Peru é um país machista. Muito machista.

No Peru, uma adolescente pode ser espancada pelo pai se flagrada tendo sexo com o namorado. Aqui, a mulher que está em cárcere não tem direito a visitas conjugais. No sistema público de saúde, é proibido a entrega gratuita da pílula do dia seguinte para pacientes vítimas de estupro.

22641683_1205471326251727_267057887_o.jpgAlgo mais absurdo? No Peru, se a mulher é largada pelo marido e não se divorciam, o homem pode refazer a vida e registrar todos os filhos da nova companheira. A mulher não. A lei indica que o filho desta mulher é legalmente do ex-marido (protegido pelo vinculo do matrimonio) e para que o pai biológico consiga registá-lo, é necessário um longo e complexo processo legal.

De 10 mulheres peruanas, 6 são vítimas de violência psicológica e 2 são vítimas de violência física por parte de seu companheiro. 16% das pessoas (homens e mulheres) acham que a culpa é da própria mulher, sendo que 3,7% acham que elas MERECEM ser golpeadas e 3,8% NÃO vêem problemas em o homem forçar relações com suas parceiras.

As peruanas são trabalhadoras. Segundo o INEI (Instituto Nacional de Estatísticas e Informação), 95,4% das peruanas trabalham, a maioria em serviços. Em média, uma peruana ganha UM TERÇO A MENOS do que um peruano ganho, fazendo o mesmo serviço. Infelizmente, somente 36% das mulheres conseguem terminar a escola e pouco mais de 16% conseguem concluir uma faculdade. Isto num país onde as mulheres são 15.800.000, ou seja, 49,9% da população”.

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As vidas de quem nos passa pela porta, não nos ficam indiferentes, e ainda que a realidade seja esta, levamos-lhe a alegria de um Evangelho que não é apenas nosso, um Evangelho que necessita ardentemente de ser levado ao mundo, levado aos confins da periferia.

 

Não tenhais medo de sair e ir ao encontro destas pessoas, de tais situações. Não vos deixeis bloquear por preconceitos, por hábitos, por inflexibilidades mentais ou pastorais, pelo famoso «sempre fizemos assim!». Mas só podemos ir às periferias, se tivermos a Palavra de Deus no nosso coração e se caminharmos com a Igreja, como fez são Francisco. Caso contrário, estamos a anunciar a nós mesmos, e não a Palavra de Deus, e isto não é bom, não beneficia ninguém! Não somos nós que salvamos o mundo: é precisamente o Senhor que o salva!

- Papa Francisco -

 

É aqui que nos sentimos chamadas a habitar entre eles e com eles. É aqui que deixamos de ser nós para ser, instrumentos vivos ao serviço de Jesus Cristo no Peru.

 

 

Comunidade Ayllu,

Neuza y Paula

Oração pelo Brasil

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O grito dos(as) excluídos(as), é um movimento que sai às ruas no dia 7 de setembro, dia que se comemora a independência do Brasil. Este grito é uma manifestação do povo que procura mostrar que o governo não representa a vontade popular, mas pelo contrário, defende os interesses das elites. Na impossibilidade de realizar esta manifestação simbólica e não podendo ficar indiferentes a esta causa, realizámos na paróquia Santa Luzia, uma vigília de oração pelo Brasil na noite do dia 6.

 

Foi um momento muito bonito e carregado de simbolismo, no qual unimos os nossos corações a Cristo e lembrámos o sofrimento dos que são perseguidos e de todos os que vêem os seus direitos negados. Pedimos por um país mais justo e uma vida mais digna.

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Neste momento de encontro com a comunidade e com Deus senti o meu coração em louvor, dando graças por este povo:

... que se une em oração;

... que não baixa os braços perante as adversidades;

... que não só aponta o dedo, mas também se manifesta perante governantes corruptos;

... que não perde a esperança;

... que me ensina todos os dias que parar é morrer, que sofrer é viver e que o amor é sempre possível.

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LMC Liliana Ferreira

 

 

A missão do outro lado do atlântico

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Ter fé é assinar uma folha em branco e deixar que Deus nela escreva o que quiser (Santo Agostinho). 

Assim também a missão é deixarmo-nos guiar pelo espírito santo que nos acompanha e espera. 

Chegamos a este caminho com tudo o que somos e assim também partimos. Trouxemos no coração todos os que amamos e nos completam, fizeram-nos chegar até aqui e acompanhar-nos-ão a vida toda, assim dita o amor. Saímos ao amanhecer e também num amanhecer chegámos ao Peru. Conscientes da longevidade da viagem fortalecemo-nos nos abraços que apertados se deram neste longo até jáChegámos à terra à qual chamaremos casa nos anos que se aproximam. 

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À porta do aeroporto já nos esperavam, nos sorrisos e na alegria de finalmente nos receberem. Partilhámos o nosso nome e o nosso carisma. 

Á saída, fomos recebidas pela chuva miudinha que se fazia sentir, e neste turbilhão de sensações percorremos pela primeira vez solo peruano. O período é de puro conhecimento, despojadas de nós damos os primeiros passos junto deste povo que nos acolheu de forma tão amável. Somos nós do outro lado do atlântico vivendo a missão bem ao estilo S. Daniel Comboni. 

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Conhecer os Leigos Missionários Combonianos foi conhecer a nossa família LMC Peruana. Cada um deles partilhou connosco um pouco de si e do seu testemunho de vida e de fé. Pudémos conhecer também os postulantes com quem convivemos e partilhámos bons momentos. Entre conversas, bebidas, comidas e gargalhadas recebemos um pouco deles e demos um pouco de nós, alegres, na certeza de saber que todas estas vidas convergem para Deus. 

Certas de que foi e é Deus quem nos chama a esta missão. Caminhamos juntas certas que chegaremos aonde nos esperam.

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Neuza y Paula